Artistas e produtores culturais de Roraima denunciaram suposto favorecimento político, aprovação de candidatos sem portfólio e retaliação nos resultados do Edital de Chamamento Público Ciclo 2 da Lei Aldir Blanc, gerido pela Secretaria de Estado da Cultura (Secult).
Em nota divulgada nesta quarta-feira (26), a Associação Roraimense de Cinema e Produção Audiovisual Independente (Arcine) informou que enviou um requerimento à Secult questionando as notas máximas atribuídas a proponentes sem trajetória cinematográfica no estado e exigiu a reavaliação de todos os lotes do segmento audiovisual.
De acordo com o comunicado, a Secult respondeu informando que a reavaliação será feita para corrigir eventuais erros ou vícios nos próximos editais. A associação declarou ainda estar em diálogo aberto com o Conselho Estadual de Cultura (CEC), onde formalizamos documento pedindo providências junto à Secult, e garantiu que a diretoria segue monitorando todo o processo.
A jornalista e produtora cultural Vanessa Brandão cobrou a secretaria e apontou reclamações de falhas contínuas da empresa terceirizada responsável pelo certame.
“Nós queremos que a Secult nos dê transparência, coloque uma empresa que saiba executar, porque eles terceirizam parte desse trabalho para uma empresa, mas essa empresa já vem apresentando problema há três editais, os mesmos problemas”, declarou.
A produtora relatou suspeitas de interferência de parlamentares nas aprovações. “Acontece que tem gente de fora, e a gente escuta muito falar em influências políticas de deputado A, deputado B, dentro da Secult. Tirem as mãos do dinheiro da Cultura”, disse.
Retaliação e exclusão de veteranos
Além das falhas no edital, a classe artística acusa a gestão de punir quem critica a pasta. Uma artista e compositora com 20 anos de carreira, que preferiu não se identificar, declarou que as cobranças resultam em exclusão das programações oficiais do Estado. “A partir do momento que você faz alguma declaração pública, você automaticamente fica limado das programações. E os artistas sabem disso, é por isso que eles optam sempre pelo silêncio”, relatou à reportagem.
A musicista foi desclassificada do edital, assim como outros nomes com décadas de atuação em Roraima. “Temos Neuber Uchôa, por exemplo, que tem mais de 40 anos de carreira, que deveria ter uma categoria especial só para ele. É um absurdo você ter uma pessoa que dedicou a sua vida inteira à arte fora de um edital”, criticou. Segundo ela, as premiações maiores costumam ir para “nomes que ninguém sabe de onde veio”.
A artista apontou também disparidade na infraestrutura dos eventos governamentais. Como exemplo, ela citou o São João do Parque Anauá, festa junina promovida pelo Governo do Estado. Enquanto atrações nacionais receberam grandes estruturas e pagamento imediato, músicos locais enfrentaram condições improvisadas.
“Esse ano era um palco-carreta, era um caminhão aberto, e os artistas estavam se apresentando lá na entrada do Parque Anauá. Já teve de fazerem assim uma decoração no chão e os artistas estarem tocando no chão”, relatou.
Atraso milionário nos cachês
Na última terça-feira (25), a cantora Nadynne Leal denunciou publicamente o Governo de Roraima pelo atraso de aproximadamente R$ 1 milhão em cachês de músicos locais, referentes a shows realizados de abril a julho. Após a repercussão, a gestão liberou R$ 428,9 mil, mas os meses de junho e julho seguem sem prazo definido para pagamento.
O outro lado
A reportagem questionou a Secult sobre as notas máximas atribuídas a candidatos sem portfólio, as denúncias de interferência política e os relatos de retaliação e exclusão de veteranos. Até o fechamento da reportagem, a pasta não se manifestou. O espaço segue aberto.










