Senador Dr. Hiran (PP) e Gerlane (PL). Foto: acervo pessoal.

Há crianças que, quando percebem que estão perdendo um jogo de tabuleiro, não aceitam o resultado. Primeiro tentam mudar uma regra. Depois questionam a jogada do adversário. Se nada funcionar, resta o gesto definitivo: passam o braço sobre a mesa e espalham as peças pelo chão. Vira os dados, rasga as cartas, quebra o peão e sai chorando, dizendo que não vai mais brincar.

Na política de Roraima em 2026, o senador Dr. Hiran (PP) tem demonstrado uma relação curiosamente parecida com o tabuleiro.

Não se trata de um episódio isolado. Os movimentos dos últimos meses começam a formar um padrão: Hiran quer participar da escolha das peças, influenciar onde elas serão colocadas e, sobretudo, preservar para si uma posição privilegiada, independentemente de qual grupo esteja do outro lado da mesa.

O primeiro movimento emblemático envolveu alguém de casa. Gerlane Baccarin, esposa do senador, deixou o Progressistas, comandado por Hiran em Roraima, e filiou-se ao PL em Brasília. O movimento forçou caminho para que seu nome fosse colocado na disputa pela vaga de vice-governadora na chapa de Arthur Henrique. Na marra, sem ninguém chamar.

A articulação chegou a produzir uma cena incomum. Durante a convenção estadual do PL, Flávio Bolsonaro apareceu por videochamada e anunciou Gerlane como vice de Arthur, antes que a direção estadual tivesse sacramentado a escolha. O PL de Roraima precisou depois esclarecer que aquela era uma preferência de Flávio, e não uma decisão da direção local. Professor Haroldo Cathedral foi o escolhido.

O senador Hiran, que havia se aproximado publicamente do projeto de Arthur Henrique e chegou a defendê-lo até na tribuna do Senado, se rebelou contra o governador eleito em campanha na internet onde a esposa se dizia ignorada e até “traída” pelo partido. A campanha não teve a adesão esperada e o assunto morreu em pouquíssimas horas.

Foi aí que o senador voltou a aparecer no ambiente das articulações envolvendo o grupo de Soldado Sampaio (Republicanos). Com sua Federação (União Brasil / PP) – parte com um candidato, parte com outro – ele achou que pudesse ainda encontrar respaldo em outros palanques. Também não teve. Se chateou.

Mas reconheçamos: Dr. Hiran desenvolveu uma habilidade particular neste processo eleitoral. Aprendeu a circular entre lavouras diferentes sem perder de vista onde poderá acontecer a próxima colheita. E, quando percebe que uma safra pode não render como esperava, logo passa a observar o terreno ao lado.

Depois veio Maria Dantas. Pré-candidata a deputada federal pelo próprio campo político comandado por Hiran, o PP, convidada pessoalmente por Antonio Denarium para concorrer, Maria acabou retirada da disputa após uma reconfiguração da chapa. A justificativa apresentada foi por matemática eleitoral. O efeito político, entretanto, foi inequívoco: uma candidatura com viabilidade foi sacrificada para acomodar uma nova engenharia construída pela direção de Dr. Hiran. Mais uma peça fora do tabuleiro, sob sua escolha.

Agora, o movimento alcança a coligação de Soldado Sampaio.

A União Progressista, presidida por Dr. Hiran em Roraima, acionou o TRE-RR para tentar retirar Podemos e Agir da aliança. Há argumentos jurídicos para o cumprimento de prazos e protocolos apresentados pela federação e eles devem, evidentemente, ser examinados pela Justiça Eleitoral.

Mas isso não se analisa apenas pelo que está escrito nas petições. Também se observa quem movimenta as peças e quais consequências cada movimento produz. Uma delas pode chegar a Shéridan Ramos.

Filiada ao Podemos e candidata a vice-governadora de Sampaio, Shéridan está justamente no partido cuja permanência na coligação passou a ser questionada pela federação comandada por Hiran.

A troco de quê? Que efeito político a Federação pretende alcançar com esse movimento? Desmontar a chapa concorrente pelo simples propósito de fragilizar o adversário? Se for esse o cálculo, trata-se de uma maneira um tanto arcaica de enxergar uma campanha eleitoral: não como disputa de projetos, mas como guerra de trincheiras. Mina-se o terreno do adversário para obrigá-lo a gastar tempo, energia e força política tentando se reconfigurar. Em vez de avançar apresentando suas próprias peças, prefere-se espalhar obstáculos pelo tabuleiro alheio.

É cedo para afirmar qual será o efeito jurídico sobre essa candidatura. Essa decisão cabe ao TRE. Politicamente, porém, a fotografia é extraordinária – depois de tentar colocar a própria esposa como vice dos grupos, meses atrás, Hiran agora protagoniza um movimento que pode criar dificuldades para a vice escolhida.

O que chama atenção não é Dr. Hiran negociar. Política exige negociação. O que merece reflexão é a frequência com que as decisões comandadas pelo senador terminam mexendo profundamente no destino político dos outros.

Gerlane precisava entrar. Maria precisou sair. Podemos e Agir agora também podem sair. Shéridan pode sentir os efeitos. E Hiran permanece no centro.

Mas ao invés de funcionar como peça da engrenagem política, ajudando a movimentar e construir alianças, Hiran parece ter escolhido outro papel: virou peça de sabotagem, disposto a travar a máquina quando já não controla para onde ela vai.

Essa talvez seja a característica mais interessante de sua atuação em 2026. Mais importante do que pertencer definitivamente a um dos grupos, ele tenta demonstrar poder suficiente para ser necessário a qualquer um deles.

Democracia também é saber perder uma jogada sem destruir a partida alheia.

ReportagemRubens Medeiros

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