Os cinco candidatos ao Governo de Roraima chegam à eleição de 2026 com um diagnóstico que, em maior ou menor grau, converge em um ponto: o estado precisa ampliar sua capacidade de gerar riqueza, emprego e renda para além da estrutura do poder público. O caminho proposto para chegar lá, entretanto, muda consideravelmente de uma candidatura para outra.

Os planos registrados por Arthur Henrique (PL), Soldado Sampaio (Republicanos), Farah Mesquita (Solidariedade), Rosi Aires (PSOL) e Clébio Genuíno (PCO) revelam projetos econômicos que vão da expansão do agronegócio e atração do investimento privado ao ecossocialismo, cooperativismo e maior intervenção estatal.

Agricultura e produção rural aparecem, sob diferentes perspectivas, em praticamente todos os programas. Em alguns, o foco recai sobre expansão da produção, competitividade, infraestrutura, agroindustrialização e acesso a mercados externos. Em outros, a prioridade está na agricultura familiar, no pequeno produtor, no cooperativismo, na agroecologia e na distribuição dos resultados econômicos. Mineração, garimpo, bioeconomia, turismo, tecnologia e comércio com Guiana e Venezuela completam um mosaico de alternativas para uma economia que procura novas fontes de crescimento.

A posição geográfica de Roraima também começa a ser reinterpretada. A condição de estado distante dos principais centros consumidores brasileiros, historicamente tratada como obstáculo, aparece em parte dos programas como uma possível vantagem. Guiana e Venezuela deixam de ser vistas apenas como países fronteiriços e passam a integrar estratégias de comércio, logística e exportação. No caso guianense, a possibilidade de alcançar portos do Atlântico abre uma discussão sobre novos corredores para a produção roraimense.

Arthur Henrique (PL). Foto: arquivo/ Semuc BV.

Arthur aposta em agro, logística e iniciativa privada

O plano de Arthur Henrique (PL) é um dos que apresentam mais claramente uma visão sobre como ampliar a economia roraimense.

Com 47 páginas e 13 eixos, o documento parte da avaliação de que Roraima vive uma oportunidade de transformação provocada pela expansão agrícola, pela ligação ao Sistema Interligado Nacional e pela posição geográfica entre Venezuela e Guiana.

O agronegócio ocupa posição central. A proposta é ampliar produção e produtividade, assistência técnica, irrigação, pesquisa, regularização fundiária e agroindustrialização.

Mas o projeto econômico não termina na porteira. Arthur pretende combinar crescimento agrícola com melhoria da logística, atração de empresas e investimentos, mineração, transformação digital e ampliação do comércio internacional.

A Guiana ocupa posição estratégica nessa visão. A ideia é aproveitar a ligação terrestre com o país vizinho e sua saída para o Atlântico como alternativa logística para aproximar a produção roraimense de mercados internacionais.

Na prática, o modelo proposto procura formar uma sequência: aumentar a produção, melhorar a infraestrutura para escoá-la, agregar valor dentro do estado e ampliar as exportações.

A iniciativa privada aparece como protagonista desse processo, enquanto ao governo caberia criar ambiente regulatório, infraestrutura, segurança jurídica e instrumentos para atrair investimentos.

O plano também aborda mineração e defende mudanças capazes de ampliar o aproveitamento econômico do potencial mineral de Roraima.

Há, porém, uma ausência que chama atenção diante das discussões mais recentes no estado: apesar das pesquisas que apontam potencial para terras raras em Roraima, o plano não apresenta uma política específica para desenvolver essa eventual cadeia produtiva.

Soldado Sampaio (Republicanos). Foto: IG/ @soladosampaiorr

Sampaio diz partir do pequeno produtor

Soldado Sampaio (Republicanos) também aposta no setor rural, mas o ponto de partida é diferente.

Seu programa dedica um eixo ao Roraima + Campo, reunindo desenvolvimento rural, pesca e agricultura familiar. O diagnóstico destaca problemas como regularização fundiária e ambiental, assistência técnica, agroindustrialização e dificuldades enfrentadas pelos pescadores.

O objetivo declarado é tornar o campo mais produtivo e competitivo sem concentrar a estratégia apenas na agricultura empresarial.

Agricultores familiares, pescadores, comunidades ribeirinhas, mulheres rurais e indígenas recebem espaço no documento.

A proposta inclui regularização fundiária, fortalecimento da assistência técnica, desenvolvimento de cadeias produtivas, agroindustrialização e organização da pesca artesanal.

Sampaio também apresenta o Estado como indutor da atividade econômica. O programa reserva papel relevante à administração pública na oferta de infraestrutura, assistência técnica, crédito, qualificação e organização das cadeias produtivas.

Ciência, tecnologia e inovação aparecem como outro componente do projeto, juntamente com infraestrutura e modernização administrativa.

O plano, entretanto, não desenvolve uma política específica para mineração e tampouco apresenta estratégia própria para terras raras.

Essa ausência ganha relevância porque o debate sobre minerais críticos avança justamente enquanto Roraima tenta identificar novas atividades capazes de diversificar sua economia.

Faradilson Mesquita (Solidariedade). Foto: divulgação.

Farah coloca mineração e garimpo dentro da estratégia

Entre os cinco candidatos, Farah Mesquita (Solidariedade) é quem incorpora de maneira mais explícita a mineração ao projeto econômico.

Seu programa possui 17 páginas e dez eixos. A estratégia passa por desburocratização, incentivo ao empreendedorismo, agricultura, comércio exterior e exploração mineral.

Uma das propostas é o Roraima Exporta, destinado a apoiar empresas e produtores interessados em alcançar mercados externos, com atenção especial à Venezuela e à Guiana.

Farah também pretende ampliar a regularização fundiária, assistência técnica e acesso ao crédito, além de melhorar vicinais e estimular a agroindustrialização.

O principal diferencial aparece no eixo de desenvolvimento sustentável, mineração e meio ambiente.

O plano propõe regularizar a atividade mineral e criar o programa Garimpo Legal, oferecendo assistência técnica, ambiental e jurídica ao pequeno garimpeiro. Também prevê rastreabilidade da produção mineral e recolhimento dos tributos relacionados à atividade.

É a defesa mais direta, entre os programas analisados, da formalização do garimpo como componente da economia estadual.

Farah reconhece a mineração como vetor econômico, mas não detalha como Roraima poderia aproveitar uma eventual descoberta comercialmente viável desses minerais para desenvolver processamento, tecnologia ou indústria dentro do próprio estado.

Rosi Aires (Psol). Foto: Divulgação

Rosi propõe outro modelo 

O programa da candidata do PSOL, Rosi Aires, assume como referências o ecossocialismo, a participação popular e a proteção socioambiental como formas de desenvolvimento econômico.

A economia proposta por Rosi está apoiada principalmente na agricultura familiar, cooperativismo, economia solidária, agroecologia, bioeconomia, turismo comunitário e cadeias associadas à sociobiodiversidade.

É uma concepção diferente sobre o significado de desenvolvimento. Em vez de medir o avanço econômico prioritariamente pela expansão das grandes atividades produtivas, o programa procura distribuir a atividade econômica entre pequenos produtores, cooperativas e comunidades.

A bioeconomia aparece como uma das possibilidades de transformar os recursos naturais de Roraima em renda sem reproduzir modelos tradicionais de exploração.

Povos indígenas também ocupam uma posição muito mais central do que nos demais programas. O tema aparece em saúde, educação, segurança, cultura, turismo e desenvolvimento econômico.

Na mineração, a diferença em relação a Farah é particularmente evidente.

Enquanto Farah propõe organizar e legalizar o garimpo, Rosi enfatiza o combate ao garimpo ilegal, ao uso de mercúrio e à exploração irregular em territórios indígenas.

São duas respostas bastante distintas para uma das questões econômicas e ambientais mais sensíveis de Roraima.

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Clébio Genuíno (PCO). Foto: arquivo pessoal

Clébio propõe ruptura econômica, mas medidas ultrapassam poder do governador

Clébio Genuíno apresenta o projeto mais distante dos demais.

O programa do PCO propõe uma transformação econômica baseada em aumento expressivo de salários, redução da jornada de trabalho, estatizações e ampliação da intervenção pública na economia.

Entre as propostas estão aumento emergencial de 50% nos salários, salário mínimo de pelo menos R$ 7,5 mil, jornada semanal de 35 horas, cancelamento de dívidas dos trabalhadores, reestatização de empresas privatizadas, nacionalização de setores estratégicos e estatização do sistema financeiro.

A questão é que uma parcela relevante dessas medidas não pode ser implementada por decisão de um governador.

O salário mínimo nacional, legislação trabalhista, funcionamento do sistema financeiro e nacionalização de setores econômicos envolvem competências federais e decisões do Congresso Nacional.

O programa apresentado pelo PCO também possui caráter nacional e não desenvolve com a mesma profundidade dos principais adversários questões específicas da economia roraimense.

Por isso, apesar de representar a maior ruptura ideológica entre as cinco candidaturas, é também o programa com maior distância entre parte das propostas apresentadas e os instrumentos disponíveis ao Governo de Roraima.

Foto: arquivo/ Giovani Oliveira

O campo está em quase todos os caminhos

A comparação mostra que a agricultura continuará no centro da discussão econômica independentemente do resultado da eleição. O que muda é a prioridade dentro dela.

Outro ponto relevante é a mudança de perspectiva sobre a posição geográfica de Roraima. Durante décadas, a distância dos grandes centros consumidores brasileiros foi apontada como uma das limitações econômicas do estado.

Nos programas de 2026, a fronteira começa a aparecer também como oportunidade. No caso da Guiana, há um componente adicional: o acesso ao Atlântico. A possibilidade de utilizar a conexão terrestre como corredor de exportação modifica a lógica tradicional, na qual praticamente toda a produção roraimense precisa percorrer milhares de quilômetros em direção ao restante do Brasil.

Nenhum plano estabelece uma fotografia suficientemente completa da economia que pretende entregar ao final dos quatro anos; quanto o estado deverá produzir, quais setores deverão ganhar participação, quantos empregos serão criados ou quanto a dependência da administração pública deverá diminuir.

Os cinco candidatos apresentam caminhos. A disputa que começa agora é para convencer o eleitor sobre qual deles realmente pode levar Roraima a uma economia maior, mais diversificada e capaz de gerar riqueza para além dos contracheques do poder público.

ReportagemRedação

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