A mudança na administração do Centro de Acolhimento ao Autista (Teamarr) abriu uma disputa pública de versões entre a deputada Angela Águida e a Assembleia Legislativa de Roraima. De um lado, a parlamentar afirma ter sido surpreendida pela troca na gestão, relata a saída de servidores e a retirada de materiais pertencentes a colaboradores. Do outro, a Assembleia garante que nunca cogitou fechar o programa, promete a continuidade dos atendimentos e anuncia melhorias na estrutura e nos protocolos.
Ainda há perguntas que precisam ser respondidas. Quem decidiu pela mudança? Quando a antiga gestão foi oficialmente comunicada? Quais servidores foram exonerados ou afastados? Houve prejuízo aos atendimentos? Quais materiais foram retirados e a quem pertenciam? Sem respostas documentadas, seria irresponsável transformar qualquer uma das versões em verdade definitiva.
Mas há algo que independe da disputa de narrativas: é lamentável que famílias que dependem de um serviço dessa importância tenham sido submetidas à insegurança, à circulação de informações desencontradas e à necessidade de buscar explicações sobre a continuidade do atendimento de seus filhos.
Pessoas com Transtorno do Espectro Autista e suas famílias precisam de previsibilidade. Mudanças administrativas podem ocorrer. Gestores podem ser substituídos, servidores podem deixar funções e novos protocolos podem ser implantados. O que não pode acontecer é uma transição dessa dimensão produzir dúvidas sobre atendimentos, profissionais, materiais e continuidade de um programa que faz parte da rotina de dezenas de famílias.
Também é necessário separar política pública de patrimônio político. Nenhum programa mantido com recursos públicos pertence a uma parlamentar, a uma gestão ou a um grupo político. Ao mesmo tempo, institucionalizar uma política pública não significa ignorar a história de quem participou de sua criação e consolidação.
Se houve falha de comunicação por parte da Assembleia, ela precisa ser reconhecida e corrigida. Se houve tentativa de transformar uma mudança administrativa em instrumento de disputa eleitoral, isso também merece reprovação. As famílias não podem ser utilizadas como argumento de conveniência por nenhum dos lados.
A Assembleia afirma que o Teamarr continuará funcionando. Angela Águida diz que buscará alternativas para continuar o trabalho desenvolvido ao longo dos últimos anos. Ambas as posições precisam agora ser acompanhadas de transparência, documentos e, sobretudo, responsabilidade.
Enquanto agentes políticos disputam versões, são as famílias que convivem com a dúvida. E isso, por si só, já é muito lamentável.










