A Coluna Radar, da Revista Veja apontou nesta sexta-feira (21) que atual governo acumula mais óbitos que período equivalente da gestão anterior; neste sábado, a Coluna Painel, do jornal Folha de São Paulo, mostra neste sábado (22) queda de 29,5% nas mortes desde 2023 e redução de 75,7% nos óbitos por desnutrição
Duas reportagens publicadas em um intervalo de apenas um dia apresentam leituras diferentes sobre a situação na Terra Indígena Yanomami e mostram como o recorte utilizado na análise dos números pode mudar a percepção sobre a evolução da crise.
Nesta sexta-feira (21), a revista Veja publicou reportagem afirmando que as mortes registradas nos três primeiros anos do governo Lula superaram as contabilizadas em período equivalente da gestão de Jair Bolsonaro. Neste sábado (22), a Folha de S.Paulo apresentou dados mais recentes do Ministério da Saúde mostrando redução da mortalidade na Terra Yanomami em comparação com 2023, primeiro ano da atual gestão e início da emergência sanitária.
As informações não necessariamente se contradizem. Elas medem coisas diferentes.
A Veja considera o número acumulado de mortes entre 2023 e 2025 e o compara com o período de 2019 a 2021. Segundo os dados apresentados pela publicação, foram 1.121 mortes nos três primeiros anos do atual governo, contra 951 nos três primeiros anos da gestão Bolsonaro.
O número acumulado, portanto, é maior no período Lula.
A conclusão de que as mortes estão atualmente em trajetória de crescimento, entretanto, não encontra a mesma sustentação quando são considerados os indicadores mais recentes.
Dados divulgados neste sábado mostram queda
A reportagem publicada pela Folha neste sábado utiliza outro recorte: compara o primeiro semestre de 2026 com o mesmo período de 2023.
Nesse intervalo, o número de mortes por todas as causas caiu de 224 para 158, redução de 29,5%.
A queda foi ainda mais expressiva entre algumas das causas associadas à crise humanitária. As mortes por desnutrição diminuíram 75,7%, os óbitos por infecção respiratória aguda recuaram 40,8% e as mortes por malária foram zeradas no período analisado.
Assim, duas afirmações podem ser verdadeiras simultaneamente: o atual governo acumula mais mortes registradas em seus três primeiros anos do que o período equivalente da gestão Bolsonaro, mas a mortalidade entre os Yanomami está atualmente abaixo do patamar registrado no início de 2023.
Uma comparação mede o acumulado. A outra revela a tendência.
E essa diferença é fundamental para interpretar os números.
Comparação entre governos exige contexto
Há ainda uma variável que dificulta uma comparação puramente numérica entre os dois governos: a capacidade de atendimento, diagnóstico e registro dentro da Terra Indígena Yanomami mudou ao longo do período.
O Governo Federal afirma que, entre 2019 e 2022, houve deterioração da assistência à saúde e subnotificação de adoecimentos e óbitos, com unidades e polos-base sem funcionamento regular. Desde 2023, houve ampliação do atendimento, da busca ativa, dos diagnósticos e da vigilância epidemiológica.
Esse argumento não permite desconsiderar as mortes registradas durante o governo Lula, nem prova sozinho que toda a diferença entre os dois períodos decorra de subnotificação.
Mas introduz uma cautela necessária: comparar apenas números absolutos de períodos com capacidades diferentes de diagnóstico e notificação pode produzir uma leitura incompleta da realidade.
Há também uma questão temporal.
A crise humanitária encontrada em janeiro de 2023 não surgiu com a posse de Lula. A emergência sanitária foi decretada diante de uma situação que já estava instalada no território.
Por outro lado, depois de mais de três anos de governo, a atual administração também precisa responder pelos resultados alcançados desde a intervenção.
Garimpo recua
Outro indicador que ajuda a medir a evolução da crise é a presença do garimpo ilegal.
Segundo o Governo Federal, entre março de 2024 e agosto de 2026 houve redução de aproximadamente 99% na abertura de novas áreas de garimpo na Terra Indígena Yanomami.
O dado é relevante porque a mineração ilegal está associada à degradação ambiental, contaminação dos rios, insegurança alimentar, disseminação de doenças e desestruturação das comunidades.
A redução de novas áreas não significa, entretanto, que o garimpo tenha desaparecido ou que os danos acumulados tenham sido revertidos.
O que os números realmente mostram
A reportagem publicada pela Veja nesta sexta-feira parte de um dado relevante: o número acumulado de mortes registrado entre 2023 e 2025 supera o contabilizado no período equivalente do governo Bolsonaro.
Os dados apresentados pela Folha neste sábado acrescentam outra dimensão à análise: a mortalidade caiu desde 2023.
Por isso, dizer que houve mais mortes acumuladas durante os primeiros anos do governo Lula não é o mesmo que afirmar que atualmente morrem mais Yanomami ou que a crise continua se agravando.
Da mesma maneira, a redução recente dos óbitos não apaga as centenas de mortes registradas durante a atual administração nem significa que a emergência tenha sido superada.
O quadro que emerge dos números é mais complexo do que a comparação direta entre governos.
A gestão Lula acumula mais mortes registradas em seus três primeiros anos do que o período equivalente da gestão Bolsonaro. Ao mesmo tempo, os indicadores mostram que a mortalidade geral caiu 29,5% desde o primeiro semestre de 2023, as mortes por desnutrição recuaram 75,7% e houve redução expressiva da expansão do garimpo.
A pergunta central, portanto, não é apenas em qual governo morreram mais Yanomami.
É saber se a situação encontrada no início de 2023 melhorou depois da intervenção federal.
Os indicadores mais recentes mostram avanços importantes. Mas as 158 mortes registradas somente no primeiro semestre deste ano também deixam claro que a crise Yanomami ainda está longe de ser considerada encerrada.










