Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.

Duas reportagens publicadas em um intervalo de apenas um dia apresentam recortes diferentes sobre as mortes na Terra Indígena Yanomami e mostram como o período escolhido para analisar os dados pode mudar a leitura sobre a evolução da crise humanitária.

Nesta sexta-feira (21), a Coluna Radar, da revista Veja publicou reportagem afirmando que o número de mortes registrado nos três primeiros anos do governo Lula superou o contabilizado em período equivalente da gestão de Jair Bolsonaro. Neste sábado (22), a Coluna Painel, da Folha de S.Paulo apresentou dados do Ministério da Saúde que apontam redução da mortalidade na Terra Yanomami em relação a 2023, primeiro ano da atual gestão e quando foi decretada a emergência em saúde pública no território.

As duas informações não necessariamente se contradizem. Elas utilizam períodos diferentes para medir a situação.

Veja compara número acumulado entre governos

A reportagem da Veja considera o número acumulado de mortes entre 2023 e 2025 e o compara com os três primeiros anos do governo Bolsonaro, de 2019 a 2021.

Segundo dados do Ministério da Saúde apresentados pela publicação, 1.121 indígenas morreram na Terra Yanomami entre 2023 e 2025, contra 951 mortes entre 2019 e 2021. A diferença é de 170 óbitos, o que representa cerca de 17,9% a mais no período correspondente ao atual governo.

Sob esse recorte, portanto, o número acumulado de mortes é maior nos três primeiros anos do governo Lula.

A conclusão de que as mortes continuam atualmente em trajetória de crescimento, entretanto, não encontra a mesma sustentação quando são observados os indicadores mais recentes.

Dados divulgados neste sábado mostram queda

A reportagem da Folha utiliza outro recorte. Em vez de comparar o acumulado entre governos, observa a evolução dos indicadores dentro da atual gestão, confrontando o primeiro semestre de 2026 com o mesmo período de 2023.

Nesse intervalo, o número de mortes por todas as causas caiu de 224 para 158, uma redução de 29,5%.

A queda foi ainda maior em algumas causas diretamente relacionadas à crise sanitária. As mortes por desnutrição diminuíram 75,7% no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período de 2023.

Dados apresentados pelo governo também apontam redução de 40,8% nos óbitos por infecção respiratória aguda, enquanto as mortes por malária foram zeradas na comparação entre os dois períodos.

Assim, duas afirmações podem ser verdadeiras simultaneamente: o atual governo acumula mais mortes registradas em seus três primeiros anos do que o período equivalente da gestão Bolsonaro, mas a mortalidade entre os Yanomami caiu em relação ao patamar encontrado no início de 2023.

Uma comparação mede o acumulado entre governos. A outra mostra a evolução recente dos indicadores.

A diferença é fundamental para interpretar os números.

Comparação entre governos exige contexto

Há ainda uma variável que dificulta uma comparação exclusivamente numérica entre os dois governos: as condições de atendimento, diagnóstico e registro de mortes dentro da Terra Indígena Yanomami mudaram ao longo do período.

Em resposta à reportagem da Veja, o Governo Federal afirmou que entre 2019 e 2022 houve deterioração da assistência à saúde e subnotificação de adoecimentos e óbitos, com unidades e polos-base fechados ou sem atendimento regular. Segundo o Executivo, desde 2023 foram ampliados o atendimento, a busca ativa, os diagnósticos e a vigilância epidemiológica.

O argumento não permite desconsiderar as mortes registradas durante o governo Lula nem demonstra, por si só, que toda a diferença entre os dois períodos decorra de subnotificação.

Mas introduz uma cautela necessária: comparar números absolutos de períodos com diferentes capacidades de atendimento e notificação pode produzir uma leitura incompleta da realidade.

Há também uma questão temporal. A emergência em saúde pública foi decretada em janeiro de 2023 diante de uma crise que já estava instalada no território. Por outro lado, passados mais de três anos desde o início da intervenção, os resultados obtidos também passam a integrar o balanço da atual administração.

Garimpo recua

Outro indicador utilizado pelo Governo Federal para medir a evolução da crise é a presença do garimpo ilegal.

Segundo dados apresentados pelo Executivo, entre março de 2024 e agosto de 2026 houve redução de aproximadamente 99% na abertura de novas áreas de garimpo na Terra Indígena Yanomami. No mesmo período, as operações teriam provocado prejuízo estimado em R$ 768 milhões à atividade ilegal.

A redução da abertura de novas áreas não significa, entretanto, que o garimpo tenha desaparecido do território ou que os danos acumulados ao longo dos anos tenham sido revertidos.

O que os números mostram

A reportagem publicada pela Veja nesta sexta-feira parte de um dado objetivo: o número acumulado de mortes registrado entre 2023 e 2025 supera o contabilizado nos três primeiros anos do governo Bolsonaro.

Os dados divulgados neste sábado acrescentam outra dimensão à análise: os indicadores de mortalidade apresentam queda em relação a 2023.

Por isso, afirmar que houve mais mortes acumuladas nos três primeiros anos do governo Lula não equivale a dizer que atualmente morrem mais Yanomami do que em 2023 ou que a mortalidade permanece crescendo.

Da mesma forma, a redução recente dos óbitos não apaga as centenas de mortes registradas durante a atual administração nem significa que a emergência sanitária tenha sido superada.

O quadro revelado pelos números é mais complexo do que uma comparação direta entre governos.

A gestão Lula acumula mais mortes registradas em seus três primeiros anos do que o período equivalente da gestão Bolsonaro. Ao mesmo tempo, os dados mais recentes mostram queda de 29,5% na mortalidade geral em relação ao primeiro semestre de 2023 e redução de 75,7% nas mortes por desnutrição.

A questão central, portanto, vai além de identificar em qual governo houve mais mortes registradas. Os números também permitem avaliar se a situação encontrada no início de 2023 apresentou melhora após a intervenção federal.

Os indicadores recentes apontam avanços importantes. As 158 mortes registradas apenas no primeiro semestre de 2026, porém, mostram que a crise Yanomami ainda está longe de ser considerada encerrada.

ReportagemRedação

Deixe seu comentário

Please enter your comment!
Please enter your name here