A redução das chuvas e as temperaturas elevadas já mudaram a rotina de agricultores da zona rural de Boa Vista. No Murupu, produtores que normalmente dependiam da irrigação com maior intensidade apenas a partir de setembro precisaram acionar os equipamentos ainda em junho para manter as lavouras.

A situação ocorre em meio aos efeitos do El Niño, que aumenta a preocupação com a disponibilidade de água no solo e com possíveis perdas na produção. Para enfrentar o período mais seco, agricultores têm recorrido a sistemas de irrigação alimentados por energia solar instalados pela Prefeitura de Boa Vista. Ao todo, 156 equipamentos estão em funcionamento.

Um dos produtores atendidos é Edilson Gomes, agricultor da região do Murupu. Ele recebeu o sistema há cerca de um ano e afirma que, em 2026, precisou começar a irrigação cerca de três meses antes do período em que normalmente utilizava o equipamento.

“Com o inverno normal, a gente liga a irrigação no meio de setembro, mas como o período está muito seco, acionamos o sistema em junho porque está muito quente. Antes, a gente tinha uma bomba para molhar a lavoura, mas era muito difícil porque a conta de energia ficava muito alta. Agora, a força da água vem da placa solar que recebemos da prefeitura e não gastamos mais energia elétrica”, relatou.

Edilson Gomes, agricultor da região do Murupu. Foto: Semuc BV.

Irrigação funciona até dez horas por dia

A necessidade de manter água disponível para as plantações também aumentou o tempo de funcionamento dos equipamentos.

Calieu Ribeiro, que trabalha com o tio, Edilson Pereira, no Murupu, relata que o sistema chega a permanecer ligado durante praticamente todo o dia. Na propriedade são cultivados produtos como melão, melancia, milho, café, mamão, maracujá e macaxeira.

“Aqui, a gente produz melão, melancia, milho, café, mamão, maracujá, macaxeira e outras culturas. Com a instalação da placa solar, conseguimos ampliar o sistema de irrigação e tudo fica irrigado por um bom período. Hoje, com a seca, a gente liga o sistema às 7h e segue até as 17h, com uma interrupção de uma hora, ao meio-dia. Sem irrigação não teria como manter tudo produzindo”, afirmou.

Calieu Ribeiro. Foto: Semuc BV.

Os equipamentos instalados nas propriedades são compostos por bomba submersa, painéis fotovoltaicos, filtro e mangueiras de gotejamento. A tecnologia permite distribuir a água diretamente nas áreas cultivadas e reduzir o consumo de energia elétrica para o bombeamento.

Segundo o secretário municipal de Agricultura e Assuntos Indígenas, Cezar Riva, a irrigação tem sido utilizada para reduzir os impactos da menor disponibilidade de água sobre as plantações.

“Com a redução das chuvas, esses equipamentos permitem que os agricultores mantenham suas plantações irrigadas, evitando perdas e dando mais segurança para o desenvolvimento das culturas”, disse.

El Niño aumenta preocupação com período seco

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial e pode alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.

As projeções climáticas citadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) indicam preocupação com chuvas abaixo da média e temperaturas elevadas na região Norte ao longo do segundo semestre de 2026. Esse cenário pode ampliar a deficiência hídrica, elevar a necessidade de irrigação nas áreas produtivas e aumentar o risco de incêndios.

Na zona rural de Boa Vista, a mudança já é percebida diretamente pelos agricultores, principalmente pela necessidade de antecipar e prolongar a irrigação para manter a produção.

Atualmente, mais de 4,5 mil famílias vivem na área rural da capital. Desse total, 2.165 são atendidas pelo Plano Municipal de Desenvolvimento do Agronegócio (PMDA), que oferece serviços de apoio à produção, desde a preparação da terra até a colheita.

FonteSemuc BV
ReportagemRedação

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