Há algo profundamente contraditório em um político que se apresenta como líder forte, defensor da democracia e homem público experiente, mas que, diante da possibilidade de enfrentar o povo nas urnas, prefere recorrer aos tribunais para tentar mudar as regras do jogo.
A crise política em Roraima já desgastou demais a confiança da população nas instituições. Depois de anos de instabilidade, cassações, trocas de comando e batalhas judiciais, o mínimo que se esperava era respeito ao princípio mais básico da democracia: deixar o povo decidir. Mas não é isso que estamos vendo.
O governador interino, Soldado Sampaio (Republicanos), transformou a judicialização da eleição suplementar em uma estratégia política. Em vez de disputar votos, multiplicam-se movimentos jurídicos para interromper o pleito, alterar regras eleitorais e abrir caminho para uma eleição indireta, justamente o cenário em que ele já declarou publicamente possuir maioria esmagadora dentro da Assembleia.
A pergunta que fica é simples: se existe tanta confiança política, tanto apoio popular e tanta convicção de liderança, por que tanto medo da eleição direta? Por que tentar se manter no poder à força, sem o crivo popular, e se dizer um estadista defensor da democracia. A ação retratada exatamente o oposto do ideal apresentado da boca pra fora.
O discurso de estabilidade perde completamente a força quando acompanhado de tentativas permanentes de evitar o julgamento popular. Democracia não é vencer no tapetão. Democracia é aceitar o risco da derrota nas urnas.
A figura do “soldado” costuma remeter à coragem, enfrentamento e disposição para a batalha. Mas o que se vê hoje em Roraima é o oposto disso: um soldado que evita o campo de batalha eleitoral. Um líder político que parece mais confortável nos gabinetes e nas articulações de bastidor do que diante da soberania popular.
Toda vez que surge uma decisão que mantém a eleição direta, aparece uma nova ofensiva jurídica. Toda vez que o calendário eleitoral avança, nasce uma nova tentativa de suspensão. É uma sequência que transmite à sociedade uma mensagem perigosa: a de que o voto popular virou obstáculo, e não solução.
O mais grave é que esse comportamento aprofunda ainda mais a instabilidade institucional do Estado. Enquanto a população espera respostas para problemas reais – saúde precária, estradas abandonadas, insegurança, desemprego e falta de perspectivas – a política continua consumida por disputas pessoais de poder.
Roraima não precisa de mais manobras. Precisa de paz institucional. E paz institucional só existe quando há respeito às regras democráticas e à vontade popular.
Quem deseja governar um Estado precisa, antes de tudo, demonstrar coragem para enfrentar eleições. Precisa confiar no convencimento, no debate público e na capacidade de conquistar votos legitimamente.
Líder de verdade não teme o povo. Quem teme eleição talvez não tenha tanta certeza da própria força quanto tenta demonstrar.










