Um servidor público de 44 anos foi preso preventivamente nesta sexta-feira (18), em Boa Vista, suspeito do feminicídio da técnica em radiologia Michele Soares de Deus, de 48 anos. Segundo a Polícia Civil de Roraima (PCRR), uma perícia confrontou a versão inicialmente apresentada pelo investigado de que a companheira havia sofrido uma queda da cama.
Identificado pelas iniciais E.O.S., o homem foi preso no bairro Buritis, zona Oeste da capital, após a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) reunir depoimentos, documentos médicos e uma perícia médico-legal que ajudaram a reconstruir as circunstâncias em que Michele sofreu o ferimento que posteriormente provocou sua morte.
A técnica em radiologia sofreu um grave traumatismo cranioencefálico no dia 27 de julho e foi internada no Hospital Geral de Roraima (HGR). Ela permaneceu hospitalizada por aproximadamente 40 dias e morreu em 7 de setembro em decorrência dos ferimentos.
Família desconfiou de versão sobre queda
As circunstâncias do caso começaram a ser questionadas pela família enquanto Michele ainda estava internada.
No dia 2 de setembro, uma irmã da vítima procurou o Plantão Central Especializado (PCE) e registrou um boletim de ocorrência. Segundo a Polícia Civil, ela relatou que E.O.S. havia informado à família que Michele teria caído da cama dentro da residência e batido a cabeça.
A familiar, no entanto, desconfiou que a gravidade das lesões não seria compatível com a explicação apresentada e pediu que o caso fosse investigado.
Em 11 de setembro, quatro dias depois da morte de Michele, uma filha da vítima apresentou novas informações à polícia. O relato trouxe uma versão diferente sobre a origem do traumatismo.
Conforme as informações apresentadas à investigação, Michele e E.O.S. teriam participado de uma festa e discutido no local. Durante a discussão, o servidor teria empurrado a companheira. Ela teria caído, batido a cabeça no pedal de uma motocicleta e ficado desacordada.
Ainda segundo o relato, E.O.S. teria colocado Michele em um veículo e informado que a levaria para receber atendimento médico, mas não teria levado a vítima ao hospital naquele momento.
A Polícia Civil informou que outras explicações também teriam sido apresentadas pelo investigado sobre o ferimento. Além da suposta queda da cama, ele teria mencionado a possibilidade de Michele ter escorregado em um igarapé no interior de Roraima.
Perícia analisou lesão no crânio
O caso foi encaminhado à Deam no dia 14 de setembro. A partir daí, a delegada Carla Gabriella Muniz Paulain e a equipe da unidade aprofundaram as diligências para confrontar os relatos com os elementos técnicos reunidos durante a investigação.
Entre as medidas adotadas esteve uma perícia médico-legal indireta, que incluiu uma reconstrução em 3D da lesão no crânio de Michele.
O procedimento foi realizado pelo médico-legista Esdras Fagundes, do Instituto de Medicina Legal (IML).
Segundo a Polícia Civil, a análise identificou características compatíveis com um impacto contra objeto rígido, saliente e de superfície limitada. O resultado, conforme a investigação, mostrou-se compatível com a dinâmica apresentada posteriormente à polícia e incompatível com a hipótese de uma simples queda no chão.
“Quando recebemos as novas informações, passamos a verificar cada detalhe e confrontar as versões apresentadas com os elementos de prova. A perícia indireta foi fundamental para esclarecer a natureza da lesão e verificar a compatibilidade com a dinâmica relatada”, afirmou a delegada Carla Gabriella.
Prisão preventiva
Após três dias de aprofundamento das investigações na Deam, a delegada pediu a prisão preventiva de E.O.S. na quinta-feira (17). A medida foi autorizada pela Justiça e cumprida no fim da tarde desta sexta-feira.
O servidor foi localizado no bairro Buritis e conduzido à sede da delegacia. Durante o interrogatório, exerceu o direito constitucional de permanecer em silêncio.
Ele deve passar por audiência de custódia neste sábado (19).
De acordo com a delegada, a investigação buscou reconstruir o que ocorreu e confrontar as diferentes versões sobre a origem da lesão sofrida por Michele.
“Foi um trabalho de reconstrução dos fatos. Nós tínhamos uma versão apresentada pelo investigado e precisávamos confrontá-la com aquilo que os demais elementos de prova demonstravam. A prova técnica, construída a partir dos exames médicos, foi fundamental para esclarecer a dinâmica da lesão e desmontar uma versão criada para ocultar o que realmente aconteceu”, afirmou Carla Gabriella.
O caso continua sob investigação da Polícia Civil.










