Haitiana transforma recomeço em Boa Vista no sonho de abrir a própria padaria
Guerlande Joseph Gonzalez é exemplo de superação - Foto: Up Comunicação

No dia em que completou mais um ano de vida, Guerlande Joseph Gonzalez ganhou um presente que simbolizava muito mais do que a conclusão de um curso. Ao receber o diploma de gastronomia, a haitiana celebrou uma conquista construída após anos marcados pela violência, pela migração e pelos desafios de recomeçar em um novo país. Hoje, refugiada em Boa Vista, ela vê na culinária a chance de transformar o próprio talento em uma padaria e garantir um futuro mais seguro para os filhos.

A cozinha sempre fez parte da vida de Guerlande. No Haiti, trabalhou em bares e restaurantes antes de deixar o país para escapar da violência. A decisão significou abandonar a vida que conhecia para buscar proteção e novas oportunidades no Brasil.

“Para não perder minha vida no Haiti eu resolvi sair. As coisas estavam muito difíceis. Quando eu falo difícil, é difícil mesmo. Às vezes eu não conto tudo porque é muita tristeza que eu passei. Tenho marcas no meu corpo. É difícil falar”, relata.

A travessia começou em 2018. Guerlande entrou no Brasil por Foz do Iguaçu, conseguiu emprego em uma empresa do setor de alimentos no Mato Grosso do Sul e, mais tarde, mudou-se para Chapecó, em Santa Catarina. Apesar de trabalhar, continuou enfrentando dificuldades e episódios de violência que prefere não relembrar.

Foi no Sul do país que ouviu falar de Boa Vista. Uma amiga venezuelana contou que a capital de Roraima poderia representar a oportunidade de reconstruir a vida ao lado dos filhos. Em 2025, decidiu recomeçar mais uma vez.

“Uma mulher me disse que, se eu fosse para Boa Vista, conseguiria reconstruir minha vida sozinha com meus filhos. Quando cheguei, encontrei pessoas que acreditaram em mim”, completa.

Os primeiros meses na capital foram dedicados à adaptação. Com apoio do Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR), conseguiu matricular o filho na escola, teve acesso ao Bolsa Família e iniciou um curso de português. Pouco depois, deu mais um passo rumo à independência financeira.

Capacitação abriu novas oportunidades

Guerlande Joseph Gonzalez conclui capacitação em projeto de gastronomia – Foto: Up Comunicação

Foi em Boa Vista que Guerlande conheceu o projeto Mulheres Fortes, desenvolvido pelo ACNUR, Instituto Hermanitos e Ministério Público do Trabalho (MPT-AM/RR), com apoio do Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região. A iniciativa oferece capacitação profissional e incentivo ao empreendedorismo para mulheres migrantes, refugiadas e brasileiras em situação de vulnerabilidade.

Durante o curso de gastronomia, Guerlande aprimorou técnicas que já conhecia e ampliou o repertório culinário ao dividir a cozinha com colegas de diferentes nacionalidades. Com mulheres venezuelanas, aprendeu a preparar empanadas, receita que hoje também vende em seu carrinho de lanches.

Na véspera da formatura, ela e as colegas prepararam todo o cardápio servido na cerimônia: bolos, salgados, doces e pastéis. No dia seguinte, recebeu o diploma justamente na data do aniversário.

“Eu já vendo pastel e empanadas. Meu plano é ter uma padaria para fazer salgados e doces. Quero alugar um local e ter meu negócio”, afirma.

Empreender para vencer barreiras

A história de Guerlande reflete a realidade enfrentada por muitos haitianos que buscam reconstruir a vida no Brasil. Estudo do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), em parceria com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), mostra que essa população ainda enfrenta obstáculos como barreiras linguísticas, discriminação, xenofobia, racismo e maior dificuldade de inserção no mercado de trabalho.

Segundo o oficial de inclusão socioeconômica do ACNUR, Paulo Sérgio de Almeida, essas dificuldades fazem do empreendedorismo uma alternativa para ampliar a autonomia financeira.

“As condições de trabalho dessa população continuam marcadas por vulnerabilidades estruturais, incluindo rendimentos inferiores aos de outros refugiados, jornadas excessivas, ausência de pagamento de horas extras, barreiras linguísticas e episódios recorrentes de discriminação. O empreendedorismo tem sido um caminho para mulheres buscarem sua autonomia econômica, valendo-se de habilidades que são valorizadas no Brasil”, diz.

Para o diretor-presidente do Instituto Hermanitos, Tulio Silva, a trajetória de Guerlande demonstra como a qualificação profissional pode contribuir para a inclusão de mulheres migrantes e refugiadas.

“O Mulheres Fortes oferece formação, ferramentas e conexões para que mulheres refugiadas e migrantes possam transformar suas experiências em autonomia, renda e novas perspectivas para suas famílias”, finaliza.

Um futuro que agora tem endereço

Hoje, Guerlande continua vendendo pastéis e empanadas enquanto economiza para abrir a própria padaria. Também pretende se naturalizar brasileira ao lado dos dois filhos e construir definitivamente a vida em Roraima.

Ela evita falar do passado. Prefere concentrar as energias no que ainda deseja conquistar. “Nunca vou esquecer as pessoas que me ajudaram. Aqui é meu lugar. Tenho planos grandes. Quero ter minha casa própria, criar meus filhos, comprar meu carro e fazer meu negócio crescer”, detalha.

Para quem um dia precisou deixar tudo para trás, o diploma recebido no aniversário representa muito mais do que uma formação profissional. É a confirmação de que, depois de atravessar fronteiras em busca de segurança, Guerlande finalmente encontrou em Boa Vista um lugar para escrever os próximos capítulos da própria história.

FonteAssessoria
ReportagemRedação

Deixe seu comentário

Please enter your comment!
Please enter your name here