A Escola Estadual Indígena Ana Belardo, localizada na comunidade indígena Kauwê, em Pacaraima, ao Norte de Roraima, apresentou nesta quarta-feira (29) um projeto de turismo pedagógico que utiliza atividades práticas para fortalecer a identidade cultural, incentivar o empreendedorismo e aproximar estudantes da sustentabilidade. Desenvolvida há pouco mais de um mês, a iniciativa envolve cerca de 90 alunos e deve futuramente integrar o roteiro turístico da comunidade.
A proposta transforma a escola em um espaço de aprendizagem prática. Os estudantes participam da produção de mudas de café e de outras espécies, aprendem sobre conservação ambiental, grafismo indígena, confecção de artesanato com sementes, danças tradicionais e empreendedorismo por meio de feiras realizadas na própria comunidade.
Segundo a professora do 4º ano, Micilene Peixoto Schwaikartt, o projeto foi pensado para integrar diferentes áreas do conhecimento em um único ambiente de aprendizagem.
“Estamos construindo um grande viveiro focado na produção de mudas de café e, nesse espaço, os alunos aprendem sobre meio ambiente, sustentabilidade, técnicas agrícolas e conservação do solo de forma totalmente prática e participativa”, disse.
Ela explica que o viveiro também será utilizado para a produção de mudas destinadas ao paisagismo da comunidade e para o cultivo de espécies utilizadas na fabricação de artesanato e tinturas naturais.
“O turismo pedagógico entra justamente abrindo as portas da escola e da comunidade para permitir que a arte, o saber tradicional e a conscientização ambiental caminhem lado a lado. Nosso objetivo é formar jovens conscientes do seu papel ambiental e orgulhosos da sua herança cultural”, completou.
Resgate cultural
Além das atividades ligadas ao turismo, a escola pretende fortalecer o ensino da língua macuxi, das danças tradicionais e dos costumes indígenas, envolvendo também as famílias dos estudantes.
A professora do 5º ano, Jucerlania Lima, afirma que o projeto busca recuperar conhecimentos que vêm sendo perdidos ao longo dos anos.
“O projeto vem resgatar não só nas crianças, mas em nós professores e na comunidade em si. Vamos chamar as famílias para esse processo de resgate da nossa língua, porque hoje são poucas as pessoas que ainda falam o macuxi. Valorizar a nossa identidade é muito importante para nós”, detalhou.
Ela destaca que a iniciativa também poderá criar novas oportunidades econômicas para a comunidade. “Nós já estamos conversando para incluir essa experiência na rota de turismo da comunidade. Isso vai ajudar as famílias porque agrega cultura e agricultura, além de criar novas possibilidades de geração de renda”, explicou.
Alunos devem integrar roteiro turístico
A expectativa da comunidade é que, com o amadurecimento da iniciativa, os próprios estudantes passem a participar das experiências oferecidas aos visitantes, apresentando manifestações culturais, conhecimentos tradicionais e produtos produzidos na escola.
Coordenadora-geral de Turismo da comunidade Kauwê, Karynna Macuxi explica que o trabalho começa pela formação das crianças.
“No primeiro momento, elas precisam entender o que é o turismo e como ele pode impactar positivamente a vida da comunidade. Além da cultura, nós estamos trabalhando o empreendedorismo”, pontuou Karynna.
Segundo ela, as atividades já despertam nos estudantes uma nova percepção sobre o potencial econômico da comunidade.
“As famílias participaram de uma feira trazendo seus produtos e as crianças começaram a perceber que, quando os turistas chegarem, elas também poderão apresentar suas danças, mostrar a cultura e comercializar aquilo que produzem”, enfatizou.
A intenção é que, futuramente, as atividades desenvolvidas pela escola façam parte oficialmente da rota turística da Kauwê.
“Nós estamos fazendo esse trabalho primeiro dentro da comunidade, ensinando e preparando nossas crianças. Depois queremos apresentar esse projeto em feiras, universidades e outros espaços, mostrando que elas podem representar a nossa cultura e também contribuir para a economia da comunidade”, concluiu.

Identidade fortalecida
Entre as famílias, o projeto também tem fortalecido o vínculo das crianças com a ancestralidade. A indígena taurepang Milena Suarez, mãe de três estudantes da escola, afirma que o trabalho desenvolvido na comunidade tem aproximado os filhos da própria história.
“Quando eu era criança participava da dança Parixara. Agora meus filhos estão tendo essa oportunidade e isso me deixa muito feliz. A gente precisa passar para eles esse amor pela ancestralidade. Eles estão aprendendo novas palavras, conhecendo a cultura e isso vai entrando no coração deles”, pontuou.
O interesse também já é percebido entre os estudantes. A aluna Ester Tainá, de 12 anos, conta que o projeto despertou ainda mais a curiosidade sobre as próprias origens.
“Meu avô era indígena e isso despertou esse interesse em mim. Eu acho muito legal manter essa tradição”, detalhou a menina.
Também de 12 anos, Arazarik Souza afirma que as atividades têm fortalecido sua ligação com a cultura indígena.
“Eu gosto muito da cultura indígena. Minha avó era indígena e agora estou tendo mais contato para aprender. Estou gostando muito”, disse.
O projeto conta com apoio do Sebrae Roraima, que contribui com ações voltadas ao empreendedorismo e à estruturação da iniciativa para que, futuramente, ela possa integrar a Rota do Café desenvolvida na região.










