
Representantes de comunidades indígenas de Roraima participaram, ao longo de dois dias, de uma consulta voltada à prevenção e ao enfrentamento da violência contra crianças, adolescentes, jovens e mulheres indígenas. O encontro ocorreu na comunidade Tabalascada, no município do Cantá, e reuniu 89 lideranças de dez regiões do estado.
A discussão foi promovida pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e o Conselho Indígena de Roraima (CIR), com apoio da Organização Internacional do Trabalho (OIT), e ocorreu em um cenário de indicadores preocupantes.
Segundo dados citados pelos organizadores, Roraima possui a maior proporção de população indígena do país, com mais de 15% dos habitantes autodeclarados indígenas, conforme o Censo 2022. O estado também registra a maior taxa de homicídios de crianças da Região Norte e a maior taxa de suicídios entre jovens do Brasil, de acordo com o Atlas da Violência 2026.
Além disso, o número de medidas protetivas de urgência concedidas a mulheres indígenas aumentou 331% nos últimos cinco anos, segundo o Tribunal de Justiça de Roraima.
O encontro reuniu coordenadores regionais da juventude, representantes do movimento de mulheres indígenas e lideranças comunitárias para debater formas de fortalecer a proteção de grupos vulneráveis nos territórios indígenas. Participaram ainda representantes do Tribunal de Justiça de Roraima, Ministério Público, Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e Distrito Sanitário Especial Indígena Leste.
Consulta busca orientar ações de prevenção
A atividade integra um projeto voltado à proteção e promoção dos direitos de crianças, adolescentes e jovens indígenas na Amazônia brasileira. A proposta é levantar percepções, experiências e prioridades das próprias comunidades para subsidiar ações de prevenção e enfrentamento da violência.
A chefe do escritório do UNICEF em Roraima, Tâmara Simão, destacou a importância da participação das comunidades na construção de estratégias de proteção.
“A abordagem adotada considera o que cada povo entende por bem-estar, proteção e situações que afetam suas comunidades, contribuindo para o desenvolvimento de estratégias específicas e diferenciadas, alinhadas ao contexto indígena. Não é possível construir respostas para a proteção de crianças indígenas sem ouvir o que os próprios povos entendem por proteção”, afirma.
O encarregado do Escritório de Projetos da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para a Amazônia, Raoní do Vale, ressaltou que a consulta aos povos indígenas é um direito previsto na Convenção nº 169 da OIT.
“Todas as medidas legislativas e administrativas que os afetam diretamente devem ser consultadas de maneira livre, prévia e informada, por meio das instituições representativas dos povos indígenas, como o CIR. Políticas públicas de prevenção e medidas protetivas, por exemplo, devem ser culturalmente apropriadas. Não é o mesmo proteger pessoas em territórios indígenas que em grandes centros urbanos”.
O tuxaua-geral do Conselho Indígena de Roraima (CIR), Amarildo Macuxi, afirmou que o debate faz parte das ações voltadas à defesa dos direitos das mulheres e da juventude indígena.
“Esse trabalho reforça nossa coletividade e o enfrentamento das violências que atingem nossa comunidade, nosso povo. Estamos aqui em defesa da liberdade, principalmente da juventude e das mulheres”, explicou.
A tuxaua-geral do Movimento das Mulheres Indígenas e coordenadora do Departamento de Mulheres do CIR, Kelliane Wapichana, destacou a gravidade dos índices de violência registrados no estado.
“O que estamos debatendo é muito importante para as crianças, adolescentes, jovens e mulheres indígenas. O estado de Roraima ocupa o primeiro lugar em feminicídios, em estatísticas graves de violência, e isso, enquanto povos indígenas, mostra o quanto é importante estarmos aqui debatendo essa temática dentro dos nossos territórios, principalmente para buscar estratégias para esse enfrentamento”, disse.
Propostas serão sistematizadas
Durante a consulta, também foram identificados mecanismos de proteção já existentes nas comunidades, como normas internas, práticas culturais e redes de apoio locais. O objetivo é fortalecer a articulação entre esses recursos e o Sistema de Garantia de Direitos.
O coordenador da juventude indígena da região de Itacutu, Cauã Wapichana, de 16 anos, destacou a participação dos jovens nas discussões.
“Que o trabalho que estamos realizando aqui produza resultados concretos, porque a base dessa transformação somos nós: a juventude, as mulheres e as lideranças indígenas. Que os jovens aqui presentes possam compartilhar os aprendizados de hoje com outros jovens, com suas famílias e comunidades, para que juntos possamos fortalecer e melhorar o nosso bem-viver”, disse.
Ao final do processo, as contribuições e propostas levantadas serão organizadas em materiais informativos com recomendações direcionadas às lideranças indígenas, comunidades e órgãos públicos.









