Os cinco candidatos ao Governo de Roraima chegam à eleição de 2026 com um diagnóstico que converge em vários pontos quando o assunto é educação: a rede estadual precisa melhorar a infraestrutura das escolas, valorizar professores, incorporar tecnologia e avançar na qualidade da aprendizagem.

O caminho proposto para chegar lá, entretanto, muda consideravelmente de uma candidatura para outra.

Os planos registrados por Arthur Henrique (PL), Soldado Sampaio (Republicanos), Farah Mesquita (Solidariedade), Rosi Aires (PSOL) e Clébio Genuíno (PCO) revelam diferentes concepções sobre o papel da escola e sobre onde o próximo governo deveria concentrar esforços.

Arthur aposta em metas de desempenho, infraestrutura e acompanhamento de resultados. Sampaio aproxima educação, tecnologia e mercado de trabalho. Farah concentra propostas em modernização das escolas, ensino integral e valorização dos professores. Rosi propõe mudanças na gestão da rede e o fim das escolas militarizadas. Clébio apresenta um programa de ruptura, com forte ampliação do papel do Estado na educação.

Há convergências importantes. Climatização, conectividade, formação dos profissionais e melhoria da estrutura escolar aparecem, com diferentes níveis de detalhamento, em mais de um programa.

Mas é justamente quando os planos avançam além dessas propostas mais consensuais que começam a aparecer as maiores diferenças.

Arthur Henrique (PL), candidato ao governo de Roraima. Foto: reprodução/ redes sociais.

Arthur transforma desempenho em meta

O plano de Arthur Henrique (PL) é um dos que mais explicitamente transforma a melhoria da aprendizagem em números a serem perseguidos pelo governo.

A proposta estabelece metas para o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Para os anos finais do ensino fundamental da rede estadual, pretende elevar o indicador de 4,4 para pelo menos 5,0 até 2029. No ensino médio, a meta é passar de 3,8 para 4,5.

Também propõe, em articulação com os municípios, elevar o Ideb dos anos iniciais do ensino fundamental de 5,9 para 6,5.

A estratégia prevê acompanhamento dos resultados por escola, município, território e modalidade de ensino.

Na infraestrutura, Arthur propõe um cronograma para climatização da rede estadual, começando pelas escolas do interior e da faixa de fronteira. A medida envolve também adequações na rede elétrica, necessárias para suportar a instalação dos equipamentos.

O plano prevê ainda expansão do ensino integral, renovação do transporte escolar, conectividade, apoio à ampliação de creches e fortalecimento da educação indígena e rural.

Outra proposta é conectar 100% das escolas estaduais à internet até 2030 e ampliar salas de recursos e atendimento educacional especializado.

Um dos projetos que mais diferencia o programa é o chamado Fundo Raiz. A ideia é utilizar recursos provenientes de fontes como exploração mineral, ativos ambientais e eventual exploração de petróleo e gás para financiar iniciativas destinadas ao ensino médio.

Entre elas estaria um incentivo financeiro para estudantes do terceiro ano, condicionado à frequência e à aprovação.

Na prática, Arthur estrutura sua proposta educacional principalmente em três frentes: desempenho, infraestrutura e permanência do estudante.

A presença de indicadores permite verificar posteriormente se parte dos objetivos foi alcançada. Por outro lado, propostas financiadas por receitas futuras, como o Fundo Raiz, dependeriam da concretização dessas fontes de recursos.

ELEITORAL
Soldado Sampaio (Republicanos) Foto: Reprodução/Redes Sociais

Sampaio direciona para o mercado de trabalho

Soldado Sampaio (Republicanos) coloca a formação profissional entre os principais elementos de sua estratégia para a educação.

Seu programa combina recuperação da estrutura existente com uma tentativa de preparar estudantes para atividades econômicas que o candidato acredita que ganharão espaço em Roraima.

O plano prevê construção, recuperação e revitalização de escolas, melhoria da merenda, reforço da segurança escolar, renovação do transporte e valorização dos profissionais da educação.

Sampaio propõe ampliar a educação técnica e profissionalizante por meio de parcerias com universidades, institutos e setor produtivo. A formação seria direcionada às vocações e às novas oportunidades econômicas do estado.

Agricultura, pecuária, mineração e atividades relacionadas a novos ciclos econômicos aparecem nessa estratégia.

A proposta tenta criar uma ligação mais direta entre aquilo que o estudante aprende e as possibilidades de emprego que poderão surgir no estado.

Há ainda propostas de educação financeira no ensino médio, preparação para Enem e vestibulares, expansão do ensino integral, estágio remunerado e criação de programas de incentivo aos estudantes.

Sampaio também pretende ampliar o modelo de colégios militarizados.

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Farah Mesquita (SD). Foto: Divulgação

Farah aposta em modernização e ensino integral

Farah Mesquita (Solidariedade) apresenta uma proposta mais concentrada em quatro frentes: estrutura escolar, tecnologia, ampliação do ensino integral e valorização dos profissionais.

O plano prevê modernização das escolas estaduais, climatização das unidades e melhoria da conectividade.

A proposta é ampliar progressivamente o ensino em tempo integral, incorporando atividades complementares à rotina escolar.

Na área tecnológica, Farah pretende garantir internet de qualidade nas escolas, ampliar laboratórios de informática e fortalecer o ensino tecnológico e profissionalizante.

Para os professores, o programa prevê qualificação permanente, incentivo à formação continuada e valorização salarial dentro dos limites da responsabilidade fiscal.

O plano também direciona atenção às escolas indígenas e às comunidades mais afastadas, reconhecendo a necessidade de políticas adaptadas às diferentes realidades territoriais de Roraima.

Comparado aos programas de Arthur e Sampaio, entretanto, o documento apresenta menos indicadores quantitativos capazes de estabelecer onde a rede estadual deveria chegar ao final dos quatro anos.

Há objetivos claros como modernizar escolas, ampliar ensino integral, melhorar conectividade e valorizar professores, mas menos metas numéricas para medir o resultado dessas políticas na aprendizagem.

Rosi Aires (Psol). Foto: Divulgação

Rosi quer mudar a gestão das escolas

Rosi Aires (PSOL) apresenta uma concepção diferente sobre o que deve mudar prioritariamente na educação estadual.

Enquanto outros candidatos concentram parte relevante das propostas em infraestrutura, desempenho ou formação profissional, Rosi coloca também no centro da discussão a forma como as escolas são administradas.

Uma das principais propostas é acabar com o modelo de escolas militarizadas e implantar eleição direta para diretores.

O programa pretende ainda fortalecer conselhos escolares, grêmios estudantis e ampliar a participação da comunidade nas decisões e na elaboração dos projetos pedagógicos.

A proposta representa uma mudança significativa na organização de parte da rede estadual.

Na infraestrutura, Rosi também prevê reformas, climatização, acessibilidade, laboratórios, bibliotecas e acesso à internet.

Para os profissionais da educação, defende plano de carreira, formação continuada, melhores condições de trabalho e atenção à saúde dos servidores.

Outro projeto é o Escola Aberta, que pretende utilizar unidades escolares também à noite e nos fins de semana para atividades de esporte, cultura, lazer e qualificação.

O currículo também ganha uma dimensão diferente.

O programa propõe ampliar atividades culturais e abordar temas ambientais, sociais e de direitos humanos dentro da formação dos estudantes.

Na educação profissional, Rosi pretende direcionar cursos para áreas como bioeconomia, turismo, tecnologia, agroindústria, logística e comércio exterior.

Povos indígenas ocupam espaço relevante na proposta, com defesa de projetos pedagógicos específicos, materiais adequados às diferentes comunidades e formação de professores indígenas.

Também há proposta de expansão da Universidade Estadual de Roraima (UERR), com maior presença da instituição no interior.

O programa de Rosi é, entre os cinco, um dos que mais enfatiza gestão democrática, participação da comunidade e diversidade curricular.

Em contrapartida, apresenta menos metas quantitativas de aprendizagem do que o plano de Arthur.

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Clébio Genuíno (PCO). Foto: arquivo pessoal

Clébio propõe ruptura, mas parte das medidas vai além do Estado

O programa apresentado por Clébio Genuíno (PCO) é o mais distante dos demais também na educação.

Em vez de organizar uma política educacional detalhada especificamente para a rede estadual de Roraima, o documento apresenta propostas vinculadas ao programa nacional do partido.

O PCO defende aumento dos recursos para a educação pública e utilização de recursos públicos exclusivamente em instituições públicas.

Também propõe eleição direta para diretores e demais gestores das escolas e maior participação de estudantes, professores e funcionários na administração das instituições de ensino.

Entre as medidas estão ainda forte valorização salarial dos professores, redução da jornada de trabalho e mudanças profundas no acesso ao ensino superior.

O partido defende, por exemplo, o fim do vestibular e o livre ingresso nas universidades.

Também propõe estatização da rede privada de ensino.

Assim como ocorre no programa econômico de Clébio, parte relevante dessas medidas ultrapassa as competências de um governador.

Mudanças nacionais no sistema de acesso às universidades e uma eventual estatização generalizada da educação privada, por exemplo, dependeriam de alterações legais e decisões que não estão sob controle exclusivo do Governo de Roraima.

O programa representa, portanto, a maior ruptura entre as candidaturas, mas também apresenta maior distância entre algumas propostas e os instrumentos diretamente disponíveis ao Executivo estadual.

Foto: SupCom ALE-RR.

A escola que cada candidato imagina

A comparação dos cinco programas mostra que praticamente todos reconhecem problemas semelhantes na estrutura da educação pública. O que muda é onde cada candidato pretende colocar o centro da transformação.

Arthur Henrique aposta mais claramente em gestão por resultados. Estabelece metas de Ideb, acompanha indicadores e combina esse modelo com investimentos em infraestrutura e conectividade.

Sampaio vê na educação uma ferramenta também para preparar a próxima geração para o mercado de trabalho. Ensino técnico, tecnologia e formação vinculada às atividades econômicas aparecem com peso maior em seu programa.

Farah concentra sua estratégia na modernização da estrutura existente, expansão do ensino integral, tecnologia e valorização dos profissionais.

Rosi coloca a democratização da gestão escolar no centro da proposta e apresenta uma direção oposta à de Sampaio em um dos temas mais politicamente sensíveis da educação estadual: as escolas militarizadas.

Clébio defende uma transformação mais profunda do modelo educacional, mas parte das mudanças propostas depende de decisões nacionais.

A disputa educacional de 2026, portanto, não está apenas em quem promete construir, reformar ou climatizar mais escolas.

Há uma discussão anterior a essa: qual deve ser a função da escola estadual nos próximos quatro anos?

Preparar para o mercado de trabalho? Elevar indicadores de aprendizagem? Ampliar participação da comunidade? Expandir modelos disciplinados de gestão ou substituí-los? Usar recursos futuros para incentivar a permanência dos estudantes?

Os cinco candidatos apresentam respostas diferentes.

E é justamente nessas diferenças (mais do que nas promessas que se repetem) que o eleitor consegue identificar qual modelo de educação cada candidatura pretende deixar para Roraima ao final de 2030.

ReportagemRedação

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