Falso advogado é indiciado por aplicar golpes contra nove pessoas em Boa Vista
Foto: Polícia Civil

Um homem de 49 anos foi indiciado pela Polícia Civil de Roraima por aplicar golpes contra pelo menos nove pessoas em Boa Vista. Segundo a investigação, ele se apresentava falsamente como advogado, prometia resolver processos judiciais, obter indenizações e liberar benefícios financeiros e cobrava valores antecipados das vítimas. 

Concluída pelo 2º Distrito Policial (2º DP), a investigação identificou nove vítimas e um prejuízo estimado em aproximadamente R$ 19 mil. Os pagamentos foram feitos por meio de transferências via PIX e também em dinheiro.

De acordo com a Polícia Civil, o investigado utilizava a falsa condição de advogado para transmitir credibilidade e convencer as vítimas de que poderia atuar em demandas judiciais. Depois de receber os valores, porém, não prestava os serviços prometidos, dificultava o contato ou apresentava justificativas para explicar a demora na suposta solução dos casos.

Investigação começou após vítima procurar a Polícia Civil

Um dos casos que ajudaram a revelar o esquema envolveu uma mulher de 51 anos, que procurou o 2º DP em 15 de maio de 2026. Ela contou aos policiais que havia contratado o suspeito para atuar em uma demanda judicial relacionada à morte do filho em um acidente de trânsito.

Acreditando que estava contratando um advogado regularmente habilitado, ela entregou mais de R$ 3 mil ao investigado, entre supostos honorários e despesas relacionadas ao processo. A confiança era tamanha que a mulher chegou a indicar o homem para familiares e conhecidos.

O companheiro dela, também de 44 anos, afirmou ter contratado os serviços e entregue aproximadamente R$ 6 mil. Segundo o depoimento, o suspeito apresentou um documento que aparentava comprovar o recebimento do dinheiro e chegou a orientá-lo a comparecer ao Banco do Brasil para sacar uma quantia que supostamente teria direito a receber.

A análise feita durante a investigação, entretanto, apontou que o documento apresentado correspondia a uma situação diferente.

“A apresentação desses documentos contribuía para dar uma aparência de legitimidade ao golpe e reforçar a confiança das vítimas”, afirmou o delegado Vinicius do Vale Oliveira, responsável pelo caso.

Polícia encontra outras vítimas

A partir da primeira denúncia, a equipe passou a cruzar os relatos, comprovantes de pagamento e documentos apresentados pelo investigado. O levantamento revelou outros casos com características semelhantes.

Um dos primeiros registros analisados ocorreu em 30 de abril de 2025, quando uma mulher de 65 anos teve prejuízo estimado em R$ 500.

Em 23 de novembro de 2025, outra mulher teria perdido aproximadamente R$ 2 mil. Já em 2 de dezembro, foram identificadas duas vítimas: uma mulher de 51 anos, com prejuízo de cerca de R$ 3 mil, e um homem de 44 anos, que teria entregue aproximadamente R$ 6 mil.

A investigação também identificou ocorrências em 2 de fevereiro de 2026, com prejuízo estimado em R$ 500; em 6 de março, com prejuízo de aproximadamente R$ 5 mil; em 15 de março, com prejuízo de R$ 900; em 17 de abril, com prejuízo de R$ 500; e em 7 de maio, com prejuízo estimado em R$ 550.

Segundo o delegado, a repetição do mesmo modo de atuação foi determinante para estabelecer a ligação entre os casos.

“A repetição do mesmo modo de atuação foi um dos principais elementos que nos permitiram perceber que estávamos diante de uma sequência de fraudes praticadas pela mesma pessoa”, explicou.

Suspeito não tinha registro na OAB

Durante as diligências, a Polícia Civil consultou a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e confirmou que o investigado não possuía inscrição válida para exercer a advocacia.

A investigação também apontou que ele teria utilizado indevidamente o número de inscrição de outro advogado.

A informação reforçou a suspeita de que a falsa condição profissional era utilizada como parte do mecanismo para conquistar a confiança das vítimas.

“Essa confirmação foi importante para a investigação porque demonstrou que a condição de advogado apresentada às vítimas era falsa. Ele utilizava essa falsa identidade profissional justamente para conquistar credibilidade”, afirmou Vinicius do Vale.

Promessas envolviam indenizações e benefícios

Conforme o relatório policial, o investigado abordava pessoas que buscavam solucionar problemas judiciais ou obter valores aos quais acreditavam ter direito.

As promessas incluíam resolver ações judiciais, conseguir indenizações e liberar benefícios financeiros. Em troca, ele cobrava valores antecipados apresentados às vítimas como honorários, custas ou despesas relacionadas aos processos.

Depois dos pagamentos, segundo a investigação, o homem não realizava qualquer serviço jurídico efetivo ou dificultava o contato com os contratantes.

Para o delegado, o suspeito se aproveitava justamente da situação de vulnerabilidade de algumas das vítimas.

“Ele se aproveitava de pessoas que procuravam uma solução para problemas importantes de suas vidas. A promessa de conseguir uma indenização, resolver uma ação ou obter algum benefício fazia com que essas pessoas acreditassem que estavam diante de um profissional habilitado”, destacou.

Polícia pediu prisão, mas Justiça determinou bloqueio de contas

Com os elementos reunidos durante a investigação, no dia 10 de junho de 2026 o delegado representou pela prisão preventiva do investigado e pelo bloqueio judicial das contas bancárias, com o objetivo de preservar recursos para eventual ressarcimento das vítimas.

O pedido de prisão preventiva não foi deferido pela Justiça. Já o bloqueio das contas foi determinado e efetuado.

A Polícia Civil também tentou ouvir o investigado durante o procedimento, mas ele optou por não comparecer à unidade policial.

“Além de identificar e individualizar cada fraude, buscamos também uma medida que pudesse preservar patrimônio para eventual ressarcimento das vítimas. A investigação foi construída a partir da análise conjunta dos depoimentos, documentos e comprovantes apresentados ao longo do procedimento”, explicou o delegado.

Homem foi indiciado por nove estelionatos

Ao concluir o inquérito, a Polícia Civil indiciou o homem por nove crimes de estelionato, previstos no artigo 171 do Código Penal, em concurso material, além da contravenção penal de exercício ilegal da profissão.

Segundo o relatório policial, os crimes de estelionato foram considerados autônomos porque ocorreram em momentos distintos, envolveram vítimas diferentes e tiveram pagamentos independentes.

A investigação reuniu boletins de ocorrência, depoimentos das vítimas, comprovantes de transferências via PIX, documentos apresentados pelo investigado, resposta oficial da OAB e manifestação do advogado cujo número de inscrição teria sido utilizado indevidamente.

Com a conclusão do inquérito, o procedimento foi encaminhado ao Ministério Público de Roraima (MPRR), que deverá analisar o caso e adotar as medidas cabíveis.

ReportagemRedação

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