Servidores de abrigo feminino denunciam agressões de adolescente - Foto: Arquivo pessoal
Servidores de abrigo feminino denunciam agressões de adolescente - Foto: Arquivo pessoal

Servidores do Abrigo Feminino da Secretaria do Trabalho e Bem-Estar Social (Setrabes), unidade mantida pelo Governo de Roraima, denunciam viver uma rotina de medo dentro do ambiente de trabalho. Segundo relatos obtidos pelo Roraima1, funcionários convivem com agressões físicas, ameaças e episódios recorrentes de violência envolvendo uma adolescente acolhida pela instituição. Além da insegurança, os trabalhadores afirmam que estão há sete meses sem receber o adicional de insalubridade, apesar de continuarem expostos a situações de risco.

A reportagem teve acesso a boletins de ocorrência registrados por servidores, relatórios internos de plantão e fotografias que mostram lesões sofridas por cuidadoras e danos a veículos atribuídos aos surtos da adolescente. A jovem é uma das responsáveis pela morte de uma servidora em 2024.

Servidores de abrigo feminino denunciam agressões de adolescente – Foto: Arquivo pessoal

Uma das servidoras informou que pretende levar o caso ao Ministério Público de Roraima (MPRR), alegando omissão do Estado diante da situação. De acordo com uma das denúncias encaminhadas ao portal, o problema se arrasta há meses e tem provocado adoecimento e pedidos de exoneração.

“Os servidores estão expostos a riscos de serem agredidos no local de trabalho e estão desde janeiro sem receber a insalubridade, sem previsão para receber e estamos indo trabalhar com medo, pois uma adolescente que vive lá e que já esteve envolvida na morte de uma servidora ameaça e agride as cuidadoras”, disse.

A servidora afirma que o ambiente de trabalho se tornou insustentável. Segundo ela, o problema não se resume aos episódios de violência. “Não existe nenhum acolhimento da gestão, medidas de proteção, capacitação. Muitas vezes somos culpados por tentar nos proteger como se estivéssemos violando algo”, acrescentou.

Ainda conforme o relato, diversos trabalhadores já deixaram a unidade. “Muitas servidoras adoeceram ou já pediram para sair. Tem umas até que já saiu e não recebeu a insalubridade. Prometeram que iam mandar mais cuidadores homens para ajudar com ela e não mandaram. Só tem dois”, afirmou.

Segundo os servidores, os surtos da adolescente são frequentes. Eles relatam que, durante esses episódios, ela agride funcionários, outras acolhidas e também danifica objetos pessoais, como motocicletas pertencentes aos trabalhadores.

Adolescente quebra motocicletas de servidores – Foto: Arquivo pessoal

Relatórios internos descrevem surtos e ameaças

Os documentos obtidos pela reportagem reforçam os relatos dos servidores. Em um relatório de plantão realizado durante acompanhamento da adolescente no Hospital Geral de Roraima (HGR), consta que a paciente apresentou comportamento agressivo durante a internação.

“Episódios de surto comportamental, caracterizados por gritos em corredor hospitalar, xingamentos verbalmente agressivo direcionado à equipe de enfermagem”, diz um trecho da mensagem.

O mesmo relatório registra que a situação se agravou em razão do comportamento de outra paciente internada no mesmo quarto. “A companheira de quarto ameaçou atear fogo no cabelo de uma das cuidadoras além de proferir ameaças, configurando risco iminente à integridade física da cuidadora em plantão”.

Ainda conforme o documento, essa paciente também ofereceu cigarro à adolescente acolhida, sendo identificados indícios de influência negativa sobre seu comportamento.

Outro relatório de plantão descreve novos episódios de agressividade. Segundo o registro, após um surto, a adolescente precisou ser medicada e contida pela equipe de enfermagem. Horas depois, voltou a apresentar comportamento violento.

“Às 15:15 (…) arremessou uma garrafa com água próximo à cuidadora. Agrediu outra paciente puxando o cabelo, sendo novamente necessária a contenção física e administração de medicação”, informou.

Relatórios apontam comportamento agressivo de adolescente – Foto: Reprodução

Servidores cobram proteção e pagamento da insalubridade

Além das agressões, os trabalhadores afirmam que a gestão não adotou medidas suficientes para garantir a segurança da equipe.

Entre as reivindicações estão o aumento do efetivo de cuidadores, treinamento específico para lidar com acolhidas em surto, apoio psicológico aos profissionais e protocolos permanentes de segurança.

Os servidores também cobram o pagamento do adicional de insalubridade, que, segundo eles, deixou de ser pago em janeiro deste ano, mesmo com a permanência das condições consideradas de risco. Na avaliação dos denunciantes, a suspensão do benefício contrasta com a realidade enfrentada diariamente pelos profissionais.

Problema já havia chamado atenção após morte de cuidadora

As denúncias surgem pouco mais de dois anos após a morte de uma cuidadora da própria unidade durante um episódio envolvendo a mesma adolescente acolhida.

Na época, o caso teve grande repercussão em Roraima e levantou questionamentos sobre as condições de trabalho e a estrutura oferecida aos servidores do abrigo. Agora, os trabalhadores afirmam que, apesar do episódio, os problemas persistem.

Segundo eles, continuam faltando reforço na equipe, capacitação, medidas efetivas de proteção e apoio institucional para os profissionais que atuam na unidade.

Uma das servidoras afirma que pretende encaminhar toda a documentação reunida ao Ministério Público de Roraima para que o órgão apure as denúncias e a atuação do Estado diante da situação.

O Roraima1 procurou o Governo do Estado para comentar as denúncias sobre as condições de trabalho na unidade, a falta de medidas de proteção aos servidores, o atraso no pagamento do adicional de insalubridade e as providências adotadas em relação aos episódios de violência registrados no abrigo. Não houve retorno dentro do prazo estipulado e ampliado pela reportagem.

ReportagemRedação

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