O Complexo Barreira, em Roraima, que já é estudado pelo potencial de ocorrência de elementos de terras raras, apresenta também concentrações elevadas de potássio em amostras analisadas durante pesquisas realizadas na área. Os resultados apontam uma anomalia geoquímica do elemento, mas ainda são necessários estudos para determinar a dimensão e a profundidade da ocorrência.
A pesquisa é conduzida pelo pesquisador José Frutuoso do Vale Júnior, PhD em Ciência do Solo e responsável pelos estudos pedológicos e pelo projeto voltado ao potássio no Complexo Barreira.
Segundo o pesquisador, análises realizadas por EDX em amostras encaminhadas à Universidade de São Paulo (USP) identificaram entre 15% e 35% de K₂O na massa do solo. Já análises realizadas pelo laboratório Geosol apontaram concentrações entre aproximadamente 12% e 14% de potássio em amostras de pó de rocha.
Os resultados, de acordo com Frutuoso Vale Júnior, confirmam a presença do elemento nas amostras analisadas tanto qualitativa quanto quantitativamente. A pesquisa, porém, ainda precisa avançar para determinar se as concentrações encontradas se repetem em outras áreas do complexo e em diferentes profundidades.
“Na geologia, nós chamamos isso de uma anomalia porque são valores muito acima do que normalmente encontramos na maioria das formações geológicas, como também na massa do solo”, explica o pesquisador.
Potássio aparece associado às rochas da região
A ocorrência estudada está associada principalmente a rochas como gnaisses e pegmatitos, que se formaram a partir de processos geológicos ocorridos na região ao longo de milhões de anos.
O Complexo Barreira está localizado entre as serras Baraúna e Anauá, em uma área que, segundo o pesquisador, passou por intensos processos tectônicos. Essas transformações contribuíram para a formação de rochas magmáticas e metamórficas que apresentam minerais como feldspato potássico e micas.
Os estudos também identificaram potássio no saprólito, material resultante da alteração das rochas, onde o elemento aparece associado às argilas. Segundo Frutuoso Vale Júnior, essas características podem ser relevantes para futuras pesquisas sobre o aproveitamento mineral da área.
Outro fator considerado importante pelo pesquisador é a proximidade do material em relação à superfície. “O potássio praticamente aflora, e isso vai facilitar a extração”, afirma.
Importância para a agricultura
O interesse pelo potássio está diretamente relacionado à sua importância para a agricultura. O elemento é um dos principais macronutrientes necessários ao desenvolvimento das plantas e participa de processos relacionados ao equilíbrio hídrico, à fotossíntese, ao crescimento vegetal e à formação de frutos e grãos.
O Brasil possui uma das maiores produções agrícolas do mundo e, por isso, apresenta elevada demanda por fertilizantes. Parte significativa do potássio utilizado no país é obtida de fontes externas.
No Complexo Barreira, entretanto, a ocorrência estudada apresenta uma característica diferente dos grandes depósitos utilizados tradicionalmente na produção de fertilizantes potássicos.
Potássio de Roraima tem origem mineral
Em grandes depósitos internacionais, o potássio utilizado na produção de fertilizantes é frequentemente obtido de depósitos evaporíticos, como a silvinita, utilizada para produção de cloreto de potássio.
No Complexo Barreira, o elemento identificado está associado a rochas e minerais, e não a um depósito de sal evaporítico. Essa diferença influencia a forma como o potássio pode ser disponibilizado. Segundo o pesquisador, enquanto o potássio presente em sais é altamente solúvel, o potássio mineral tende a apresentar uma liberação mais gradual.
“Ele vai sendo liberado lentamente e esse processo faz com que a planta aproveite o potássio em maior quantidade e por mais tempo, porque ele permanece mais tempo no solo”, explica.
A característica ainda precisa ser estudada em condições agronômicas para determinar o comportamento do material e sua eventual utilização como fonte de potássio para diferentes culturas.
Próxima etapa será dimensionar a ocorrência
A pesquisa entra agora em uma etapa considerada fundamental para determinar o potencial mineral do Complexo Barreira. Os pesquisadores pretendem realizar sondagens para investigar a distribuição e a profundidade das formações e, posteriormente, fazer a cubagem mineral.
A cubagem permitirá estimar o volume e a quantidade do material existente na área estudada. Até o momento, os resultados apresentados se referem às amostras coletadas e analisadas, sem uma estimativa consolidada do tamanho da ocorrência.
O Complexo Barreira possui aproximadamente 120 mil hectares. Para o pesquisador, caso a mesma característica geológica identificada nas áreas já estudadas se estenda por uma parcela significativa do território, o potencial poderá ser expressivo.
“Se os 120 mil hectares apresentarem esse mesmo tipo de geologia que já identificamos, o potencial será enorme. Mas precisamos primeiro dimensionar essa ocorrência”, afirma.

Da pesquisa ao possível aproveitamento
Depois das sondagens e da cubagem, o projeto poderá avançar para estudos sobre extração, processamento e beneficiamento do material.
Entre as possibilidades estão a extração, moagem e transformação da rocha em um produto mineral para uso agrícola. Antes de qualquer eventual utilização comercial, porém, serão necessários estudos para avaliar as características agronômicas do material e sua eficiência como fonte de potássio.
Os resultados iniciais ampliam a frente de pesquisa no Complexo Barreira, que já vinha sendo estudado pela ocorrência de elementos de terras raras. O potássio passa agora a ser investigado como outro possível recurso mineral da área.










