Governar e disputar uma eleição ao mesmo tempo exige um cuidado que vai muito além da agenda administrativa. Exige prudência, senso de oportunidade, e, sobretudo, a capacidade de compreender que determinados atos, embora possíveis do ponto de vista operacional, podem ser desastrosos do ponto de vista eleitoral.
Foi exatamente isso que aconteceu com o anúncio do pagamento dos salários dos servidores estaduais para este sábado, 20 de junho, um dia antes da eleição suplementar para governador de Roraima.
O governador interino e candidato Soldado Sampaio (Republicanos) anunciou a antecipação do pagamento como uma boa notícia para os cerca de 30 mil servidores ativos, aposentados e pensionistas do Estado. A informação foi divulgada publicamente. Como antecipado por esse colunista, em se tratando de Soldado Sampaio, “Prometer é fácil. Entregar é outra história”.
O Ministério Público Eleitoral (MPE) precisou intervir para alertar sobre aquilo que deveria ter sido considerado desde o primeiro momento: pagar salários na véspera da eleição pode ser interpretado como abuso de poder político e econômico. O resultado foi constrangedor. O governador interino precisou se justificar publicamente e anunciar que não vai mais pagar porque o MPE não deixou. A verdade é que o pagamento foi adiado exclusivamente porque o Ministério Público Eleitoral considerou inadequado realizá-lo às vésperas da votação. É a lei.
Ninguém percebeu isso antes? É difícil acreditar que uma gestão inteira, cercada por assessores jurídicos, equipe política e especialistas em legislação eleitoral, não tenha discutido os riscos de uma medida tão sensível em pleno fim de campanha.
O risco era conhecido, mas acreditou-se que valeria a pena avançar até que alguém reagisse. Uma manobra que não passou despercebida. O episódio produz um desgaste desnecessário justamente no momento em que Soldado Sampaio tenta consolidar a imagem de equilíbrio administrativo e respeito às instituições. Não tem.
Ao anunciar algo que precisou ser desfeito dias depois, o governador-candidato acabou transformando uma notícia positiva para os servidores em uma crise evitável. Mais do que isso, entregou aos eleitor uma percepção óbvia: o de que a máquina pública estava sendo movimentada perigosamente perto da linha que separa a administração legítima da vantagem eleitoral.
O mais curioso é que o recuo não prejudica apenas a imagem do governador-candidato. Também gera frustração para milhares de servidores que organizaram compromissos financeiros acreditando na data anunciada oficialmente. Em uma eleição acompanhada de perto por tribunais, Ministério Público e órgãos de controle, não há espaço para movimentos mal calculados ou irresponsabilidades jurídicas.
Governar exige responsabilidade administrativa. Disputar uma eleição exige prudência política. E quem ocupa simultaneamente as duas posições precisa compreender que cada decisão será observada sob as lentes da legalidade, da ética e do discernimento.










