Há quem defenda a liberdade de expressão com entusiasmo até encontrar uma parede com apontamentos dos quais discorda. Nesse momento, o defensor da liberdade acumula as funções de fiscal, juiz e encarregado da limpeza, na mesma visita.
O deputado estadual mais votado dessa eleição Marcinho Belota (PL) e a ex-candidata a deputada federal que obteve mais de 11 mil votos Athally Albuquerque (Republicanos) afirmam que foram à instituição verificar denúncias de perseguição contra estudantes de direita. Durante a visita, Athally foi apontada como a responsável por rasgar cartazes contra Flávio Bolsonaro. A UFRR repudiou o ocorrido e anunciou apuração.
As denúncias de perseguição merecem ser investigadas. Nenhum aluno deve precisar esconder sua preferência política para assistir a uma aula, participar de uma discussão ou conviver com colegas. Se houve ameaça, ofensa ou constrangimento por esse motivo, cabe à universidade apurar também. A autonomia universitária pode se medir pela disposição de investigar denúncias que incomodam seus próprios integrantes. Uma universidade em que o estudante aprende a concordar para evitar problemas está ensinando submissão, o que não é nada saudável à democracia que tanto prezamos.
Receber uma denúncia, porém, não dá a um deputado ou a uma ex-candidata autoridade para abordar estudantes de uma instituição federal ou decidir o que pode permanecer na parede daquela universidade. Mandato parlamentar não inclui curadoria de centro acadêmico. Suspeitar de uma mentira tampouco confere licença para destruir material alheio. Que eventuais irregularidades fossem apuradas pelas vias legais.
A UFRR é um espaço democrático. Isso exige liberdade para criticar Flávio Bolsonaro, defender suas propostas e questionar o conteúdo dos cartazes. Nenhum grupo pode tratar a universidade como propriedade de sua corrente política. Os estudantes de direita têm direito de se manifestar sem constrangimento. Quem discorda deles tem o mesmo direito. A parede comporta a crítica e a resposta.
Debater dá trabalho. Exige conferir a origem de uma afirmação, responder ao que foi efetivamente dito e admitir a possibilidade de estar errado. Destruir um cartaz oferece o like mais rápido e dispensa o inconveniente de preparar um argumento.
Também é insuficiente medir a correção de uma conduta pelo volume da voz. Uma abordagem pode ocorrer sem gritos e ainda constranger. A presença de um deputado estadual em uma instituição federal deve ser considerada ao avaliar as condições em que os estudantes puderam responder. Quem tem poder não deixa de exercê-lo porque fala baixo ou está sorrindo.
Isso, por si só, não comprova que houve intimidação. Exige, contudo, mais cuidado do que a confortável alegação de que tudo aconteceu em tom de conversa. A ausência de gritos não encerra a apuração de um possível excesso. Um grupo de estudantes prometeu entrar com um pedido de impeachment contra o deputado na segunda-feira (19) na Assembleia Legislativa de Roraima por quebra de decoro parlamentar, que é quando o mandatário tem uma conduta que desrespeita as regras de ética, moralidade e dignidade exigidas pelo cargo. O deputado foi quem divulgou a conversa e riu da situação em suas redes sociais. “Ai meu Deus, vão cassar meu mandato!”, debochou.
A liberdade de expressão cobra seu preço quando a opinião alheia incomoda. É nessa hora que a defesa da democracia precisa sobreviver à vontade de mandar calar. Numa universidade, uma acusação deve encontrar cobrança de provas, uma mentira deve encontrar correção e uma ideia deve encontrar quem a conteste. Quem chega para defender o direito de falar e termina decidindo o que os outros podem dizer precisa explicar a contradição. De preferência, antes de dar a próxima aula sobre liberdade.










