Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificaram concentrações elevadas de terras raras em amostras de argila coletadas no Complexo Barreira, em Caracaraí, no Sul de Roraima. Os resultados preliminares superam a média encontrada em importantes depósitos explorados atualmente no mundo, segundo a equipe responsável pelo estudo.
A pesquisa ainda está na fase de prospecção e mapeamento. Isso significa que os cientistas tentam determinar quais elementos estão presentes, em que quantidade aparecem e por qual extensão do território as concentrações se repetem.
Os primeiros resultados indicam índices entre aproximadamente 0,3% e 0,6% de terras raras nas amostras analisadas. Em depósitos de argilas iônicas explorados na China, as concentrações costumam variar entre 0,01% e 0,3%, de acordo com o professor Henrique Eisi Toma, pesquisador da Universidade de São Paulo.
“O pior resultado que encontramos em Roraima já é considerado muito bom quando comparado ao que existe na China. Estamos observando concentrações acima da média mundial para esse tipo de depósito, o que torna o estudo bastante animador”, afirmou.
Apesar dos números, o pesquisador ressalta que os dados ainda não comprovam a existência de uma jazida economicamente viável. Para isso, será necessário avaliar o volume total disponível, a distribuição do material, os custos de extração e as condições técnicas e ambientais de uma eventual produção.
“Estamos tentando entender até onde essas concentrações aparecem e qual é a dimensão da área. Essa é a fase de pesquisa científica”, explicou Toma.

O que são terras raras
Terras raras é o nome dado a um grupo de 17 elementos químicos utilizados na produção de equipamentos eletrônicos e tecnologias consideradas estratégicas. Apesar do nome, alguns desses elementos são relativamente abundantes na natureza. A dificuldade está em encontrá los em concentrações que permitam uma extração eficiente e economicamente viável.
Esses minerais são usados na fabricação de veículos elétricos, turbinas eólicas, celulares, computadores, equipamentos médicos, satélites, sistemas de defesa e componentes industriais.
A China concentra grande parte da produção e do processamento mundial de terras raras. Por isso, países como Estados Unidos, Japão e integrantes da União Europeia buscam novas áreas produtoras e alternativas para reduzir a dependência do mercado chinês.
Como funciona a pesquisa
A equipe da Universidade de São Paulo utiliza uma solução de sulfato de amônio para retirar das argilas os elementos classificados como terras raras. Depois da extração, o material passa por etapas de precipitação, isolamento e quantificação.
“O primeiro objetivo é extrair as terras raras utilizando uma solução química de sulfato de amônio. Depois fazemos a precipitação e o isolamento desses elementos na forma de carbonatos, que é o padrão utilizado internacionalmente”, explicou o professor.
O processo permite identificar quais elementos estão presentes e medir suas concentrações. A partir desses dados, os pesquisadores podem avaliar o potencial mineral da área e definir os pontos que exigem novas coletas.
Uso de nanotecnologia
Além de mapear a ocorrência mineral em Roraima, o grupo trabalha no desenvolvimento de uma tecnologia para separar individualmente os elementos encontrados nas amostras.
A proposta utiliza materiais produzidos com nanotecnologia, capazes de capturar determinados elementos de maneira seletiva. Essa etapa é considerada uma das mais complexas do aproveitamento das terras raras, porque esses elementos possuem características químicas semelhantes.
“Nós estamos desenvolvendo um processo de captura e separação utilizando nanotecnologia. Estamos criando novos materiais capazes de capturar seletivamente as terras raras, o que pode representar uma nova tecnologia para o Brasil”, afirmou Toma.
Segundo o pesquisador, o método também busca reduzir os impactos ambientais, com menor geração de resíduos durante o tratamento das argilas. “A ideia é não deixar resíduos e não degradar o meio ambiente. Esse é o grande objetivo da pesquisa”, declarou.

Próximas etapas
O estudo deverá ampliar a coleta e a análise de amostras no Complexo Barreira. Os pesquisadores querem verificar se as concentrações elevadas aparecem apenas em pontos isolados ou se estão distribuídas por uma área maior.
Somente após esse mapeamento será possível estimar o volume disponível e avaliar se a ocorrência pode avançar para outras fases de pesquisa mineral.
Henrique Eisi Toma é professor emérito e professor sênior do Instituto de Química da Universidade de São Paulo. Atua nas áreas de química inorgânica, química supramolecular e nanotecnologia e desenvolve pesquisas sobre materiais aplicados à separação de terras raras.










