No Brasil, pedir uma CPI quase sempre soa como um gesto de coragem política. Afinal, comissões parlamentares de inquérito são instrumentos importantes para investigar suspeitas, expor irregularidades e dar respostas à sociedade. Mas a credibilidade desse instrumento depende, sobretudo, da coerência de quem o defende.

Recentemente, o senador Dr. Hiran (PP-RR) passou a defender a instalação de uma investigação sobre o chamado caso do Banco Master. A iniciativa, em tese, é legítima. Sempre que houver indícios de irregularidades financeiras ou possíveis relações impróprias entre instituições e agentes públicos, o Congresso tem o dever de investigar.

O problema está no histórico recente. O mesmo senador presidiu a CPI das Bets, criada para investigar o impacto das apostas online no Brasil, incluindo suspeitas de lavagem de dinheiro, manipulação e exploração econômica de um mercado bilionário que cresce sem controle no país. A expectativa da sociedade era de uma apuração profunda. No entanto, a comissão terminou esvaziada, sem consequências práticas relevantes, e o relatório final acabou rejeitado.

Para muitos observadores da política, isso deixou uma sensação de investigação inconclusa, ou, pior, de oportunidade perdida.

É justamente aí que surge a contradição. Quando se pede uma nova CPI agora, surge uma pergunta inevitável: por que a mesma firmeza não foi aplicada antes? Se o discurso é de combate à corrupção, à lavagem de dinheiro e aos abusos econômicos, ele precisa ser constante, e não seletivo.

A sociedade brasileira já aprendeu, ao longo das décadas, que CPIs podem cumprir dois papéis muito diferentes. Em alguns casos, são ferramentas sérias de fiscalização. Em outros, acabam servindo como instrumentos de disputa política, pressão ou desgaste de adversários.

Por isso, mais importante do que pedir uma nova investigação é demonstrar coerência com as investigações anteriores.

A população quer respostas, mas também quer consistência. Quem defende transparência precisa praticá-la em todos os casos, não apenas quando o alvo é conveniente.

No fim das contas, a credibilidade de uma CPI não depende apenas dos fatos investigados, mas também da postura de quem conduz a investigação. E, na política, coerência continua sendo um dos bens mais raros, e mais necessários.

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