Foto: Alfredo Maia

Resgate da atenção, do respeito e da interação em sala de aula. É assim que a professora Lorena Dourado, que trabalha há 27 anos na rede de ensino em Boa Vista, descreve as mudanças percebidas ao longo do último ano após a regulamentação do uso de aparelhos celulares no ambiente escolar. Em Roraima, a utilização de aparelhos celulares e outros dispositivos eletrônicos por alunos das redes pública e privada de ensino passou a ser proibida pela Lei Estadual nº 2.321, de 12 de janeiro de 2026, que passará a valer a partir do dia 11 de fevereiro. A norma estadual reforça a Lei Federal nº 15.100, de 13 de janeiro de 2025, em vigor há um ano, que tem como objetivo garantir direitos fundamentais, inclusão, acessibilidade e atender às condições de saúde dos estudantes. Ficou estabelecido que o uso dos aparelhos será permitido apenas quando autorizado pelo professor para fins pedagógicos ou no caso de alunos com deficiência que necessitam do auxílio tecnológico.

Os benefícios da lei foram logo perceptíveis, conforme relatou a professora Lorena Dourado. “No primeiro mês, já foi possível resgatar muitas coisas, principalmente o respeito do aluno na sala de aula, em relação à época que eles usavam o celular. Então, a questão da atenção deles, focar no que o professor está falando, porque não tinha outra coisa para distrair”.

A mudança também trouxe à tona a resistência de parte dos estudantes. Na escola onde Lorena trabalha, alguns alunos chegaram a levar dois aparelhos: um para entregar no início da aula e outro para utilizar durante o período escolar. A professora contou que alguns estudantes apresentavam sinais de dependência das redes sociais e que, no início, foi difícil permanecer toda a manhã sem o celular. Com estratégias de diálogo, orientação e prevenção, a aceitação da regra melhorou ao longo dos meses. “Muitos ainda hoje tentam burlar através do relógio, uso de fone de ouvido e celular na mochila. Mas temos que estar atentos, afinal é uma proibição realmente”, destacou a professora.

Do outro lado da sala de aula, os efeitos da restrição também foram sentidos pelos estudantes. Izabel Cristina, de 18 anos, que concluiu o ensino médio em 2025, afirmou que na escola onde estudava o uso do celular sempre foi controlado. Ainda assim, manter o foco era um desafio para toda a turma, principalmente quando não havia fiscalização e o aparelho acabava sendo utilizado. Atualmente, ela se prepara para o vestibular e decidiu adotar estratégias para manter a concentração nos estudos, como avisar amigos e familiares sobre seus horários de estudo e utilizar o celular como meio complementar de pesquisa. “Uso como auxílio, não é minha única ferramenta, mas também não é meu pior inimigo. Tem que saber usar. Só que muita gente não sabe usar, está ali pesquisando um negócio e quando vai ver, tá assistindo outra coisa”, observou Izabel.

Para a mãe da estudante, Ana Zuleide, o cumprimento das regras escolares precisa ser reforçado também dentro de casa. Desde cedo, ela estabeleceu limites para o uso de eletrônicos e acompanhou de perto o desempenho da filha. “Eu tenho uma postura de seguir os termos da escola, só poderia usar o celular quando saísse de dentro da escola e quando pegavam eles retiravam e só devolviam quando os pais fossem lá. E já aconteceu com a Izabel de pegarem ela com o celular, e eu não fui. Ficou o fim de semana sem celular. É importante que a escola tenha regras, mas o mais importante é que os pais cumpram essa regra”, ressaltou Ana Zuleide.

A psicopedagoga Leane Silva afirmou que a proibição do uso do celular traz benefícios além da questão educacional, já que a socialização dentro da sala de aula também muda. Segundo ela, existe uma troca maior de diálogo com os colegas, além de maior concentração no conteúdo, o que melhora o entendimento e o aprendizado. De acordo com a profissional, o cérebro leva, em média, duas semanas para iniciar o processo de adaptação à redução do uso do celular e até três meses para que os resultados se consolidem. Ela ressaltou também a importância do apoio dos pais nesse processo, que devem limitar o uso dentro de casa para que o estudante compreenda os malefícios. “A saúde mental é algo muito importante, a gente vê jovens e crianças com muita ansiedade e problemas sérios, e a gente já sabe que é causado pelo celular e o excesso de redes. É importante que tenhamos um olhar crítico, atento e de percepção dessa criança e desse adolescente, porque eles se escondem muitas vezes atrás desse celular”, alertou Leane.

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