A deputada Helena, conhecida no setor empresarial como proprietária de uma das maiores empresas de transporte rodoviário de Roraima, questionou recentemente a sociedade se todos sabiam o motivo de ela dar “tanta importância às estradas”. Quando uma parlamentar que construiu patrimônio justamente no ramo do transporte rodoviário coloca a pauta das estradas como “prioridade do mandato”, a discussão precisa ir além do discurso pronto. Afinal, quem seria contra infraestrutura?
Estradas, de fato, são vetores de desenvolvimento. Em um estado como Roraima, distante dos grandes centros e com desafios logísticos históricos, rodovias trafegáveis significam escoamento da produção, acesso a serviços públicos e integração regional. Isso é inegável. O problema não está na pauta, está no conflito potencial entre interesse público e interesse privado.
Quando a principal defensora política da ampliação e manutenção de rodovias é, ao mesmo tempo, empresária diretamente beneficiada por esse tipo de investimento, a sociedade tem o dever de questionar: estamos diante de uma política pública estratégica ou de uma agenda que também fortalece um setor específico?
Investir em infraestrutura rodoviária melhora as condições de circulação para todos: inclusive para empresas de ônibus intermunicipais e interestaduais. Reduz custos operacionais, amplia rotas, aumenta demanda e valoriza contratos. Nada disso é ilegal. Mas é politicamente sensível.
O debate não pode ser reduzido a “estradas são boas” versus “estradas são ruins”. A pergunta central é: qual é o modelo de desenvolvimento defendido? Há equilíbrio entre rodovias, transporte alternativo, mobilidade urbana e planejamento sustentável? Há transparência sobre eventuais relações entre decisões orçamentárias e impactos empresariais?
Em estados menores, onde os grupos econômicos têm peso significativo na política, a linha entre representação legítima e defesa de interesses setoriais pode se tornar tênue. Por isso, o compromisso com a infraestrutura precisa vir acompanhado de mecanismos claros de transparência, fiscalização e controle social.
Helena está certa quando diz que estradas levam oportunidades. Mas também é verdade que elas levam contratos, concessões e lucros. E quando o discurso do mandato coincide diretamente com o setor de origem da parlamentar, a responsabilidade ética se torna ainda maior.
Roraima precisa, sim, de estradas melhores. Mas precisa, sobretudo, de clareza sobre quem ganha, como ganha e sob quais critérios. Desenvolvimento não pode ser apenas discurso, tem que ser política pública equilibrada e comprovadamente coletiva.









