A recuperação ambiental da Terra Indígena Yanomami avança com uma nova etapa de campo realizada entre 28 de novembro e 4 de dezembro nas regiões do Paapiu e Parafuri, em Roraima. O trabalho busca reverter danos causados pelo garimpo ilegal, observando áreas degradadas, avaliando rios e solos e discutindo com as comunidades estratégias para restaurar o equilíbrio ecológico do território.

A expectativa é que a recuperação permita o retorno da caça, da pesca e de recursos essenciais para a sobrevivência das comunidades e fortaleça a proteção do território frente novas invasões.

Pesquisadores indígenas e técnicos percorrem áreas que sofreram impacto direto da extração de ouro e registram as condições reais de regeneração. A ação dá continuidade às visitas realizadas em agosto, no alto e baixo Mucajaí, e em outubro, em Xitei e Homoxi.

Nas caminhadas de reconhecimento, o grupo avaliou cavas desativadas para entender como a vegetação está retornando e quais espécies reaparecem. O pesquisador indígena Genivaldo Krepuna explica que a recuperação é mais lenta onde há “curimã”, o solo revirado por máquinas durante a extração. Segundo ele, nesses pontos “as plantas não nascem bem; os garimpeiros desviaram rios, afastaram caça e destruíram matas”, além de deixarem restos de equipamentos e metais.

Moradores relatam que a atividade garimpeira alterou a relação com os rios e a alimentação tradicional. “Eu sou moradora daqui e eu protejo essa minha terra”, afirmou Catarina Yanomami, da comunidade Xereu II. Ela lembra que, durante o auge do garimpo, camarão, peixes e caça desapareceram. A comunidade defende que não quer mais invasores na floresta e reivindica apoio contínuo para impedir novas pressões sobre o território.

Para Maurício Yanomami, professor em Homoxi, a reconstrução ambiental é também reconstrução da vida cotidiana. Ele descreve as áreas de garimpo como “cicatrizes que nunca vão desaparecer sozinhas” e vê no processo uma chance de evitar novas destruições. “Não quero que os invasores voltem; queremos melhorar a vida e garantir qualidade de vida para o povo Yanomami.”

A iniciativa faz parte do Plano de Recuperação Ambiental da TI Yanomami, construído de forma participativa com apoio técnico da FUNAI, do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (CDS/UnB) e do Ministério dos Povos Indígenas (MPI). O processo deve ser concluído em 2025 e prevê, no primeiro semestre de 2026, um Encontro de Pajés, solicitado pelas comunidades, reconhecendo o papel espiritual dos xapiri na cura da floresta.

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