Quando canta, a araponga expande o abdômen | Foto: Anselmo d’Affonseca

Já pensou em um pássaro que pode cantar tão alto quanto o estrondo que faz um avião a jato ao decolar? Ele existe, e se chama araponga-da-amazônia. O animal é, atualmente, o ser vivo com o som mais alto já registrado por cientistas.

Como diz seu nome, a ave vive na Amazônia, especificamente nas serras que marcam a divisa entre o Amazonas, Roraima e a Venezuela. Seu ambiente natural é composto pelo frio das montanhas, o aspecto molhado das folhas por causa da umidade nas alturas e pelo som emitido por diferentes animais.

Outro lugar onde pode ser encontrado, mas como ocorrência rara, é na Serra dos Carajás, no Pará. O local é onde Mario Cohn-Haft, ornitólogo (especialista em aves), viu o pássaro pela primeira vez.

É um som muito bonito, mas também estranho. E nas serras amazônicas, onde vive a araponga, é comum ouvir seu canto. Aliás, isso faz parte da experiência que é estar naquelas alturas. Se mistura ao frio da floresta, causado pelas nuvens que passam e tocam nas árvores, deixando tudo molhado por causa da umidade
Mario Cohn-Haft, ornitólogo

 

Serra do Apiaú, em Roraima. Registro do pesquisador
Serra do Apiaú, em Roraima. Registro do pesquisador | Foto: Mario Cohn-Haft

A araponga-da-amazônia tem o tamanho de um pombo doméstico, mas seu som é tão alto que pode ser ouvido a uma distância de 1,5 km. O ‘grito’, em seu auge, pode alcançar os 125 decibéis. Em comparação, isso é tão alto quanto a turbina de um avião (130 dB), e bem maior que sons como os de uma serra elétrica (110 dB) e trem em movimento (100 dB).

Ouça o som da araponga-da-amazônia:

Como o som é emitido

Após expedições na Serra dos Carajás (PA) e da Mocidade e do Apiaú, ambas em Roraima, Mario Cohn-Haft decidiu focar seus estudos na espécie do pássaro amazônico. Assim, o cientista descobriu como e por qual motivo o som é emitido.

Em minha última expedição à Serra do Apiaú, coletei um exemplar do araponga-da-amazônia. Preparando a ave para a coleção através de taxidermia, topei com a musculatura abdominal surpreendente desse bicho. Essa parte dos pássaros costuma ser fina como uma camada de papel, só para segurar os órgãos. Mas na araponga, é diferente. A musculatura é grossa, com meio centímetro de espessura“. Mario Cohn-Haft, ornitólogo
Araponga se alimenta de frutas parecidas com o abacate, mas menores
Araponga se alimenta de frutas parecidas com o abacate, mas menores | Foto: Anselmo d’Affonseca

Curioso com o canto do animal, Mario convidou seu amigo Jeffrey Podos, biólogo da Universidade de Massachusetts, em Amherst (EUA), para estudar a araponga-da-amazônia. Ele estuda os sons produzidos por aves e as adaptações dos animais para emitir esses cantos.

“Em 2019, voltamos à Serra do Apiaú, em Roraima, e levamos um aparelho que mede o som em decibéis. Como resultado, descobrimos que a araponga tem o canto de animal mais alto já medido na terra. Pelo menos, por enquanto. O som, sendo curto e explosivo, chegou a alcançar 125 dB”, comenta o ornitólogo.

Para capturar o canto e sua altura, os pesquisadores se posicionaram a cerca de 20 metros do pássaro. O aparelho que capturou o ruído calculou os 125 dB caso o som seja ouvido a uma distância de um metro. De acordo com Mario, essa distância foi necessária porque, caso se aproximassem da araponga, poderia haver o risco de o animal fugir. Além disso, o pássaro costuma ficar na copa das árvores, as quais podem atingir até 40 metros.

Canto do amor

Durante a pesquisa, os cientistas descobriram ainda que apenas a araponga-da-amazônia macho emite esse som. O objetivo é justamente chamar a atenção das fêmeas com esse ‘ritual’ diferenciado.

Serra da Mocidade, em Roraima
Serra da Mocidade, em Roraima | Foto: Jorge Macedo

“O macho emite esse canto com duas notas. Na primeira, ele fica de costas para a fêmea e após expelir o primeiro sim, vira de frente para ela e ‘grita’ mais uma vez. É um som muito alto. Estamos curiosos sobre como um animal literalmente dá um berro na cara de outro para o cortejar”, comenta Mário.

Barbilhão

Outro destaque da araponga-da-amazônia é o seu chamado barbilhão, um apêndice que se localiza no bico e pode chegar a até 15 cm. O detalhe só está presente nos machos e pode ser contraído ou se esticar.

“O pássaro estica bem esse barbilhão quando vai cantar. Inclusive, quando ele faz a dança virar de costas e depois para a frente, esse apêndice faz um movimento como um chicote. Ainda é suspeita, mas acreditamos que se a fêmea estiver muito perto, ela leva uma ‘lapada’ na cara. Ou seja, além de aguentar o som alto do canto, ainda tem o chicote. Pensamos que isso deve ensinar a fêmea a se afastar do macho, quando o canto está prestes  a ser emitido”, discorre o cientista.

Mistérios sobre o pássaro

O órgão que permite às aves emitirem sons é chamado siringe. Normalmente pequeno nos pássaros comuns, essa mesma estrutura é bem grande no caso da araponga-da-amazônia. Apesar de terem essa informação, cientistas ainda não sabem explicar exatamente como a ave consegue emitir um som tão alto.

“Além da siringe, ainda temos de descobrir como a araponga consegue estocar tanto ar em tão pouco tempo, afinal, ela ‘suga’ e depois abre a boca para gritar, como um trompete”, afirma Mario.

Outro detalhe que deve receber atenção das próximas pesquisas é como a fêmea da espécie consegue ficar tão perto do macho quando ele canta alto.

“Talvez a fêmea tenha controles de audição que tampam os ouvidos de forma interna para proteger os ouvidos, mas ainda estamos em busca disso”, explica o ornitólogo.

Um último ponto que ainda é considerado um mistério é se as fêmeas escolhem os machos pela altura do som. Caso isso ocorra, outra possibilidade é estudar o quão mais alto os sons da araponga têm se tornado, já que, por essa hipótese, os machos brigariam entre si para ver quem canta mais alto.

Deixe seu comentário

Please enter your comment!
Please enter your name here