Roraima recebeu do Ministério da Educação o Selo Bronze de Compromisso com a Alfabetização. A notícia foi divulgada como uma conquista, um avanço, um sinal de que o Estado está “no caminho certo”. E, de fato, há méritos no reconhecimento. Mas é preciso colocar os pés no chão: selo não alfabetiza criança. Política pública não se mede pelo discurso, mas pelo impacto real na sala de aula.
O Selo Bronze, dentro do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, reconhece sobretudo a existência de gestão, estrutura e adesão formal a uma política nacional. Não é, portanto, um atestado de que as crianças de Roraima já estão lendo e escrevendo com fluência na idade certa. É, na prática, um selo de intenção, não de resultado consolidado.
O governo estadual aposta forte na narrativa da colaboração entre Estado e municípios, na criação do programa “Roraima Alfabetizando Hoje” e na formação de professores. Esses são passos importantes. Capacitar seis mil profissionais é relevante, especialmente num território com realidades tão distintas quanto escolas urbanas, rurais e indígenas. No entanto, formação sem condições materiais, sem acompanhamento pedagógico contínuo e sem avaliação transparente vira promessa, não política transformadora.
Enquanto o Estado celebra o reconhecimento oficial, números preocupantes expõem uma realidade bem menos festiva. Nessa gestão, quase 200 escolas estaduais foram fechadas em Roraima, uma redução expressiva da rede pública que enfraquece a capilaridade do ensino e levanta questionamentos sobre a efetiva prioridade dada à educação básica. Não por acaso, vozes políticas e especialistas têm apontado que o estado amarga hoje um dos piores desempenhos educacionais do país.
Esse dado está longe de ser mera estatística administrativa. O fechamento de escolas altera a rotina de comunidades inteiras: crianças passam a percorrer distâncias maiores, o transporte escolar se torna mais demorado e desgastante, e o risco de evasão aumenta, especialmente em áreas rurais e vulneráveis. Quando a escola se afasta fisicamente do aluno, o direito à educação também se fragiliza.
Esse impacto também se reflete na logística do transporte escolar, um serviço essencial para o acesso à educação em um estado de grandes distâncias territoriais. Empresários do setor relatam atrasos de até cinco meses nos repasses por parte do governo, apesar da execução dos serviços, prejudicando a manutenção dos veículos, comprometendo salários de motoristas e colocando em risco a continuidade regular do transporte de estudantes, que somam cerca de 13 mil atendidos diariamente nas rotas estaduais. Apesar das negativas do governo, essa situação revela não apenas dificuldades financeiras das empresas, mas riscos concretos para a ida dos alunos à escola quando deveria ser exatamente o contrário.
Os reflexos disso aparecem nos indicadores. Em avaliações de proficiência, apenas cerca de 3,3% dos estudantes demonstram domínio adequado em português e matemática, percentual que revela não apenas dificuldade pontual, mas uma crise estrutural de aprendizagem. Some-se a isso o fato de que levantamentos independentes colocam Roraima entre os três estados com os piores índices educacionais do Brasil, registrando queda contínua em rankings nacionais de qualidade e competitividade.
Diante desse cenário, o contraste entre o selo recebido e a realidade enfrentada nas escolas evidencia um desafio maior: transformar reconhecimento institucional em melhora concreta e mensurável na vida dos estudantes.
Outro ponto é a criação do sistema “Avaliar Roraima”. Avaliar é essencial. Mas avaliar sem publicar dados claros, comparáveis e compreensíveis para a sociedade é como medir febre sem mostrar o termômetro. Quantas crianças do 2º ano realmente leem e escrevem com autonomia? Em que nível estão? Em quais municípios o problema é mais grave? O discurso oficial não responde.
A propaganda é sempre otimista, e compreensivelmente política. Mas educação não se resolve no marketing. Roraima ainda enfrenta desafios estruturais enormes: defasagem idade-série, evasão, alta rotatividade docente, precariedade em parte da infraestrutura escolar e impactos diretos da migração e das desigualdades sociais. Nenhum selo, por si só, altera esse cenário.
Celebrar o Bronze como se fosse ouro é perigoso. Pode criar a ilusão de que o problema está resolvido quando, na verdade, ele só começou a ser enfrentado de forma organizada agora. O verdadeiro compromisso com a alfabetização não se prova em cerimônias, mas no cotidiano: na criança que lê com sentido, escreve com clareza e compreende o mundo a partir das palavras.
O Selo Bronze pode ser um ponto de partida. Mas o que Roraima precisa, com urgência, é transformar intenção em resultado, gestão em aprendizagem e política pública em direito efetivo. Alfabetizar não é cumprir protocolo. É garantir futuro.








