Gabriel Ferreira Rodrigues, 28 anos, foi encontrado sem vida na terça-feira (Reprodução/CIR)

A morte do indígena Gabriel Ferreira Rodrigues, 28 anos, da etnia Wapichana, provocou forte repercussão entre organizações indígenas e órgãos federais. Desaparecido desde o dia 1º de fevereiro deste ano na Comunidade Indígena Juracy, no município de Amajari (RR), ele foi encontrado sem vida na terça-feira, 10, após dez dias de buscas realizadas por indígenas. Uma das linhas de investigação é de latrocínio. As entidades exigem investigação rigorosa e responsabilização dos envolvidos.

Em nota, o Conselho Indígena de Roraima (CIR) afirmou que a morte representa uma perda irreparável e cobrou providências imediatas das autoridades. “Diante da gravidade do caso, o CIR exige providências imediatas e investigação rigorosa, célere, imparcial e transparente, com a responsabilização de todos os envolvidos, diretos e indiretos”, declarou o conselho.

O CIR destacou a trajetória de Gabriel no movimento indígena e sua atuação junto à juventude e às lideranças da região de Amajari. “Gabriel era um jovem indígena comprometido com a luta coletiva, atuante na defesa dos nossos direitos”, afirmou o conselho, ao ressaltar que ele caminhava “com firmeza”, defendendo territórios e mantendo viva a identidade de seu povo.

Segundo a organização, a morte de uma liderança indígena não pode ser tratada com indiferença. “A morte de uma liderança indígena não pode ser tratada com silêncio, negligência ou indiferença. Não aceitaremos a naturalização da violência contra os povos indígenas”, afirmou o CIR, ao declarar que seguirá firme na defesa da verdade, da justiça e da memória de Gabriel.

Organizações denunciam violência persistente
A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) também se manifestou publicamente. A entidade afirmou que, além de lamentar a perda precoce, exige que os órgãos competentes adotem medidas imediatas para esclarecer o caso. “Este crime não pode ficar impune”, declarou a organização.

A Coiab informou que acompanhará o caso por meio de sua Assessoria Jurídica Indígena. “A Coiab seguirá vigilante, acompanhando o caso por meio de sua Assessoria Jurídica Indígena, na luta por justiça e em respeito à vida e memória de Gabriel”, afirmou a entidade, ao mencionar que a morte de uma jovem liderança é um abalo para todo o movimento indígena.

Ao contextualizar o cenário, a organização apontou que perdas cercadas de violência indicam a persistência de crimes contra indígenas. “Quando essa perda é cercada de violência, ela aponta para o trágico e revoltante cenário de crimes contra a vida de indígenas que persiste até hoje”, declarou a Coiab.

A entidade também relembrou a trajetória de Gabriel, destacando sua atuação como coordenador regional da juventude de Amajari, comunicador da Rede Wakywaa e secretário regional das lideranças. Ele foi formado como Agente de Monitoramento do Projeto Redes Indígenas da Amazônia e representou sua etnorregião na oficina do Monitorgati, realizada no Território Indígena Araçá.

Manifestação da Funai
A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) manifestou pesar pelo falecimento da liderança indígena. Em nota, a autarquia informou que acompanhava o desaparecimento por meio da Coordenação Regional em Roraima e que notificou as autoridades de segurança pública responsáveis pelas ações de busca e investigação.

A instituição reforçou a necessidade de atuação urgente dos órgãos competentes. “Seguirá prestando apoio institucional e reforça que é de extrema urgência a atuação dos órgãos de segurança para elucidação do caso e a responsabilização dos possíveis envolvidos pela morte de Gabriel Ferreira”, afirmou a Funai.

Ainda segundo a fundação, Gabriel tinha forte atuação no movimento indígena de Roraima, especialmente entre a juventude, participando de mobilizações, assembleias e atividades ligadas às pautas de saúde, educação e direitos territoriais. A autarquia declarou solidariedade à família, parentes e amigos, destacando que o legado de luta e resistência seguirá como exemplo para as atuais e futuras gerações.

Polícia investiga caso
Em nota divulgada à imprensa, a Polícia Civil de Roraima (PC-RR) informou que as investigações sobre o caso são conduzidas de forma “técnica e dinâmica, com atualização constante das informações conforme o surgimento de novos elementos”. “Inicialmente foi registrado um Boletim de Ocorrência pela Delegacia Virtual no dia 3, relatando que a vítima saiu no dia 31 de janeiro, para ir a uma festa e desapareceu“, disse a instituição.

Veja a nota da PC-RR na íntegra:

“A Polícia Civil de Roraima, por meio da Delegacia de Pacaraima, esclarece que as investigações relacionadas ao caso envolvendo Gabriel Ferreira Rodrigues, de 28 anos, vêm sendo conduzidas de forma técnica e dinâmica, com atualização constante das informações conforme o surgimento de novos elementos.

Inicialmente foi registrado um Boletim de Ocorrência pela Delegacia Virtual no dia 3, relatando que a vítima saiu no dia 31 de janeiro, para ir a uma festa e desapareceu. As diligências para localizá-lo foram realizadas pelas equipes da Delegacia de Pacaraima e Núcleo de Investigação de Pessoas Desaparecidas nos municípios de Amajari e Boa Vista.

Durante essa fase inicial, quando Gabriel Ferreira ainda estava desaparecido, análises técnicas indicaram, como linha investigativa preliminar, a possibilidade de deslocamento do aparelho celular da vítima para Lethem, hipótese trabalhada com base nos dados disponíveis naquele momento. No entanto, uma equipe de policiais de Pacaraima foi até aquela região na segunda-feira, 09, mas não localizou o equipamento.

No início da tarde de ontem, 10, foi encontrado um corpo com características compatíveis com as de Gabriel Rodrigues, reconhecido por familiares, a cerca de 26 km da RR-203, em Amajari, no sentido BR-174/Vila Brasil. O corpo estava em adiantado estado de decomposição, e a vítima usava apenas roupa íntima masculina.

As vestimentas e a motocicleta foram encontradas próximo ao corpo. Inicialmente, não foi encontrado o celular da vítima, o que levou a Polícia Civil a trabalhar, em um primeiro momento, com a hipótese de um latrocínio, sem descartar outras linhas de investigações.

O Instituto de Medicina Legal foi acionado para a remoção do corpo para Boa Vista, enquanto uma equipe do Instituto de Criminalística Perito Dimas Almeida realizou a perícia no local. O corpo permanece no IML, onde estão sendo realizados os trabalhos periciais, sendo uma delas a de identificação oficial da vítima e, a outra, a causa da morte.”

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