O pronunciamento desta quarta-feira (17) do senador Chico Rodrigues (PSB-RR) no Plenário do Senado, denunciando abusos praticados por operadoras de planos de saúde, soa correto no conteúdo, mas profundamente incoerente quando confrontado com a realidade vivida em Roraima nos últimos anos. O alerta sobre cancelamentos unilaterais de contratos, negativas de cobertura e a transferência irresponsável de pacientes para o SUS é legítimo. O problema é que, quando o caos bateu à porta dos roraimenses, o senador escolheu o silêncio.
Em Roraima, a chamada falência da Unimed-FAMA não foi um debate teórico nem uma estatística nacional. Foi um drama concreto, com consequências reais e imediatas. Um hospital fechou as portas, pacientes internados precisaram ser transferidos às pressas, famílias viveram o desespero da incerteza e profissionais de saúde ficaram à deriva. Tratava-se exatamente do tipo de situação que exige ação política firme, articulação institucional e cobrança pública. Nada disso aconteceu.
Naquele momento crítico, o senador Chico Rodrigues não convocou audiências públicas, não pressionou a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), não acionou o Ministério da Saúde, tampouco liderou qualquer mobilização em defesa dos usuários do plano ou da rede hospitalar local. O colapso ocorreu diante de todos, menos da atuação efetiva de quem deveria representar o estado no Congresso Nacional.
Agora, ao subir à tribuna para criticar grandes operadoras e alertar para práticas abusivas no setor, o discurso parece deslocado no tempo e desconectado da própria trajetória. É impossível não perguntar: onde estava esse mesmo zelo quando pacientes roraimenses foram empurrados para outras unidades de saúde sem planejamento, sem garantia de continuidade de tratamento e sem respostas claras?
O senador afirma que a saúde suplementar não pode transferir seus problemas para o SUS sem ressarcimento. Correto. Mas em Roraima foi exatamente isso que aconteceu. O sistema público, já sobrecarregado, precisou absorver a demanda deixada pelo colapso de um plano privado, enquanto o poder político assistia passivamente. Não houve cobrança firme, nem acompanhamento, nem fiscalização… palavras que agora aparecem com frequência em seus discursos. Somente no discurso.
A crítica às operadoras nacionais, como a Hapvida NotreDame Intermédica, pode até ser necessária. No entanto, perde força quando não vem acompanhada de autocrítica ou de um histórico consistente de atuação. A defesa do consumidor da saúde não pode ser seletiva, nem oportunista, nem limitada aos holofotes do plenário.
Roraima precisa mais do que discursos bem construídos. Precisa de representantes que ajam quando hospitais fecham, quando pacientes são removidos às pressas, quando o sistema entra em colapso. A população não se protege com pronunciamentos tardios, mas com ações concretas no momento em que a crise acontece.
Denunciar agora o que ontem foi ignorado não apaga a omissão passada. Na saúde, como na política, o tempo da ação importa, e, infelizmente, para muitos roraimenses, essa ação nunca veio. Em visível ação eleitoreira, o senador nos mostra na prática que discursos tardios não salvam hospitais nem pacientes.








