Governador Denarium (PP). e ex-reitor investigado, Regys Freitas. Foto: Reprodução/Facebook/Regys Freitas

O resultado do Enamed 2025 expôs, com números claros, uma diferença que em Roraima muita gente prefere ignorar. Enquanto o curso de Medicina da UFRR alcançou nota 4, numa escala que vai até 5, a Universidade Estadual de Roraima ficou com nota 2. Não é detalhe técnico. É um retrato da forma como a educação superior vem sendo tratada no estado.

Não se trata de competição entre instituições nem de desmerecer alunos ou servidores. Pelo contrário. Quem vive o dia a dia das universidades sabe que há esforço, dedicação e compromisso tanto na UERR quanto na UFRR. A diferença está no ambiente institucional, na gestão e nas escolhas políticas feitas ao longo do tempo.

A UFRR, mesmo com limitações orçamentárias e desafios típicos da região, conseguiu manter um projeto acadêmico minimamente estável, com foco em formação, estrutura e qualidade. O resultado aparece. Nota 4 no Enamed não surge por acaso. É consequência de planejamento, cobrança acadêmica e prioridade clara: formar bons médicos.

Em Roraima, esse contraste ganha uma face política difícil de ignorar. Nos últimos anos, o ex-reitor da UERR, Régys Freitas, virou figura central de investigações que apuram suspeitas de fraudes no ingresso de alunos, desvios e outros supostos ilícitos ligados à gestão universitária. Investigações estas que já motivaram operações da Polícia Federal e repercutiram em todo o país. Enquanto isso, estava  nomeado para cargo do primeiro escalão no governo estadual, numa relação próxima com a gestão do governador Antônio Denarium. A relação entre episódios de investigação levanta perguntas legítimas sobre prioridades administrativas e sobre o efeito disso na credibilidade e no funcionamento da universidade pública estadual.

É necessário, porém, separar com clareza atores e responsabilidades. Os estudantes, professores e técnicos da UERR não podem ser tratados como sinônimos dos eventuais erros ou crimes de gestores. São eles que dão aula, atendem em laboratório, acompanham estágios e mantêm viva a rotina acadêmica, e muitos desses servidores e alunos enfrentam, diariamente, a consequência direta de decisões administrativas que fogem ao interesse da educação. O Estado e a sociedade têm o dever de preservar e fortalecer esses atores enquanto apuram responsabilidades administrativas e criminais com rigor e independência.

Quando um governo trata a educação como espaço de acomodação política, o preço aparece no ensino, nos indicadores e, no fim da linha, na vida da população. Não há curso forte onde a gestão é frágil, onde a credibilidade institucional é corroída e onde a prioridade deixa de ser o aluno para ser o aliado.

É importante dizer com todas as letras. A nota baixa da UERR não é culpa dos estudantes nem dos professores que seguem trabalhando apesar das dificuldades. Eles são vítimas de um modelo que politizou a universidade, enfraqueceu a governança e relativizou a gravidade de denúncias que jamais deveriam ser tratadas com naturalidade.

Quando se leva a educação a sério, o resultado aparece. Quando se tolera o improviso, o aparelhamento e o silêncio diante de suspeitas, o reflexo vem na avaliação, na formação e na confiança social. O Enamed apenas confirmou o que já era perceptível para quem acompanha de perto.

Roraima precisa decidir se quer universidades fortes ou universidades úteis ao poder de plantão. A diferença entre nota 2 e nota 4 não está apenas em provas e currículos. Está nas escolhas políticas feitas fora da sala de aula. E essas escolhas cobram seu preço.

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