Depois que a ex-prefeita Teresa Surita (MDB-RR) decidiu acionar a Justiça para tentar barrar o reajuste de 24% na tarifa de energia elétrica em Roraima, o tema finalmente rompeu a bolha técnica e ganhou dimensão política. A iniciativa expôs um constrangimento silencioso: o aumento já era conhecido, já estava contratado, mas ninguém havia se disposto a puxar o freio de emergência.
A partir desse movimento, outros atores passaram a se mobilizar. Os deputados Albuquerque (Republicanos), Helena Lima (MDB), Gabriel Mota (Republicanos) e o Stélio Dener (Republicanos) se somaram ao discurso contrário à tarifa. Em seguida, parte da bancada federal foi à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para questionar os critérios do reajuste. A reação, embora legítima, veio depois, e isso diz muito sobre o padrão de atuação política no estado.
O detalhe que muda o peso do debate é que, paralelamente à mobilização política, a própria Aneel decidiu se mover judicialmente. Em petição encaminhada à Justiça, a agência reguladora, representada pela Advocacia-Geral da União, pediu para ingressar formalmente na ação, alegando a “extrema relevância do tema” e a “inerente complexidade” da discussão. Na prática, a Aneel busca resguardar sua competência regulatória e evitar que decisões judiciais desestruturem o modelo tarifário que ela própria aprovou.
Ou seja, enquanto políticos correm para tentar conter os danos do reajuste junto à opinião pública, a Aneel se antecipa para blindar juridicamente o aumento. O conflito deixa de ser apenas político e passa a ser institucional: de um lado, o consumidor pressionado por uma conta de luz mais cara; de outro, a agência reguladora defendendo o rito técnico que levou ao reajuste.
Esse contraste escancara o atraso da reação política. Se a Aneel já estava preparada para judicializar o tema, por que a classe política de Roraima não se antecipou? Por que esperou que uma ex-prefeita, fora de mandato, tomasse a iniciativa para só então ocupar o debate?
A ida da bancada à Aneel, os discursos inflamados e as notas públicas surgem mais como resposta ao desgaste do que como ação preventiva. O roteiro é conhecido: primeiro o impacto recai sobre a população; depois, alguém rompe o silêncio; só então o restante do sistema político se movimenta, em bloco, para não parecer omisso.
No fim, o episódio do aumento da tarifa elétrica revela mais do que um problema no setor energético. Expõe uma cultura política marcada pela reação tardia, pela espera estratégica e pela dificuldade de enfrentar temas impopulares antes que eles explodam. Enquanto isso, a Aneel se organiza nos autos, a conta chega nas casas, e o consumidor que pague o preço da demora.








