Com faturamento acima de R$ 5 bilhões em 2025, crescimento de 11,1% em relação a 2024, a Bemol consolida uma transformação estratégica que a tirou da condição de varejista regional para se tornar um ecossistema integrado de consumo, crédito e serviços na Amazônia. Fundada em 1942 e hoje comandada pela terceira geração da família Benchimol, a companhia reúne mais de 5 milhões de clientes cadastrados e opera uma estrutura financeira robusta, com 760 mil contas ativas.
O vice-presidente Marcelo Forma explica que o crescimento sustentado da Bemol é resultado de uma decisão tomada a partir de 2019: enfrentar simultaneamente os dois maiores gargalos históricos da região Norte — logística e crédito. A estratégia adotada, chamada internamente de “share of wallet”, busca aumentar a relevância da empresa no cotidiano dos consumidores, oferecendo múltiplas soluções e criando vínculos de longo prazo. “Significa estar presente todos os dias, atender várias demandas e construir fidelidade”, resume o executivo.
Para ganhar frequência na relação com o cliente, a Bemol expandiu sua atuação para além dos eletrodomésticos. Investiu em farmácias dentro das lojas, abriu mercados físicos, passou a operar loterias, criou uma clínica de saúde e estruturou uma rede própria de serviços financeiros. Hoje, o grupo soma 37 lojas físicas, 45 farmácias, três mercados, 22 loterias, uma unidade Bemol Saúde e 23 agências da Bemol Serviços Financeiros, além do e-commerce, que já representa 17% das vendas totais.
O comércio eletrônico ganhou escala principalmente durante a pandemia, quando a empresa incluiu produtos de cesta básica na plataforma e passou a atender uma demanda essencial da população, especialmente no interior. Atualmente, o marketplace da Bemol conta com 50 vendedores locais, responsáveis por cerca de 20% das vendas online, reforçando o papel da companhia como indutora da economia regional.
A logística, apontada por Forma como o maior desafio operacional, exigiu soluções sob medida para cada município. A Bemol opera com mais de 250 caminhões e complementa a malha terrestre com barcos parceiros nas rotas fluviais, alcançando comunidades fora do eixo urbano tradicional. Um diferencial foi a integração entre logística, conectividade e crédito: a empresa instalou internet gratuita em praças públicas, permitindo o cadastro de novos clientes e a oferta de crédito inicial para compras online. “Esse modelo funcionou muito bem e nos permitiu atender hoje 100% do Amazonas”, afirma.
Paralelamente, a Bemol transformou seu tradicional crediário — historicamente forte, porém analógico — em uma fintech de crédito pessoal, conhecida como Conta Bemol. Além do parcelamento interno, a operação oferece empréstimos pessoais, crédito com garantia imobiliária, projetos-piloto com garantia veicular e um crediário parceiro, aceito em cerca de 10 mil estabelecimentos fora da rede. A meta é atingir 1 milhão de contas ativas, aproveitando a menor capilaridade do sistema bancário na Região Norte.
A trajetória da empresa está profundamente ligada à história da família Benchimol na Amazônia. De origem judaico-marroquina, os antepassados chegaram ao Brasil no século 19 e atuaram como regatões, navegando pelos rios e comercializando produtos durante o ciclo da borracha. Após o declínio do extrativismo, a família se estabeleceu em Manaus, onde Samuel Benchimol fundou a Bemol durante a Segunda Guerra Mundial, aproveitando a escassez de produtos importados. A partir dos anos 1960, com a criação da Zona Franca de Manaus, os eletrônicos se tornaram o principal motor de expansão do grupo.
Atualmente, a Bemol é liderada por Denis Benchimol, neto do fundador, que assumiu o comando em 2019. Foi nesse período que a empresa passou por uma reestruturação profunda, antecipando os impactos do avanço do e-commerce sobre o varejo físico e apostando em um modelo híbrido, adaptado às particularidades da Amazônia.
Para 2026, mesmo em um cenário macroeconômico desafiador, a expectativa é manter um ritmo de crescimento entre 10% e 12%, sem planos imediatos de expansão física para outras regiões do país. A estratégia segue concentrada no Norte, onde, segundo a companhia, ainda há amplo espaço para crescimento, inclusão financeira e ampliação do acesso ao consumo.








