Antonio Denarium (PP) e Edilson Damião (Republicanos). Foto: reprodução/Facebook

A recente reorganização promovida pelo governador Edilson Damião (UB) não é apenas uma troca administrativa. É um recado. E, sobretudo, um teste. Com nove mudanças no primeiro escalão, incluindo a saída de três secretários que devem disputar as eleições deste ano, o governo redesenha sua estrutura em meio ao calendário eleitoral. Não se trata apenas de cumprir prazos legais de desincompatibilização, é momento, antes de tudo, de ocupar espaços e de definir quem terá acesso ao centro de decisões daqui para frente.

Damião assume o governo em um contexto de transição delicada, após a renúncia de Antonio Denarium (Republicanos). Herdou uma máquina montada, com alianças consolidadas, mas também com vícios e dependências políticas. Agora, com a caneta na mão, começa a imprimir sua própria digital. As mudanças mostram um movimento calculado. Há substituições, mas também promoções internas e rearranjos que mantêm a lógica de continuidade. É o equilíbrio clássico de quem precisa governar sem romper, mas também sem parecer refém.

Ao deslocar figuras conhecidas, abrir espaço para novos quadros e reorganizar áreas estratégicas como Casa Civil e Gestão, o governador sinaliza que quer mais controle sobre o funcionamento do governo. Mas isso também traz uma cobrança imediata: a partir de agora, os erros deixam de ser herdados e passam a ser próprios. A voz de comando de Denarium passa a ser limitada, e o recado que fica do novo gestor é nítido: “Você é bem vindo, e é de casa. Mas agora, aqui quem manda sou eu”.

Ao ex-governador Antonio Denarium, é preciso reconhecer que, a partir do momento em que Edilson Damião assumiu o comando do Executivo, a autoridade deixou de ser compartilhada ou influenciada por legado e passou a ser determinada por quem ocupa o cargo. A ideia de capital político transferido tem limite claro: ela não substitui a legitimidade da caneta, nem sustenta, por si só, a capacidade de decisão. Reivindicar espaços, tensionar bastidores ou reforçar publicamente a narrativa de que foi o responsável pela ascensão do atual governador pode produzir efeito inverso, enfraquece a própria posição e expõe uma tentativa de prolongar um ciclo que, institucionalmente, já se encerrou. Em última análise, governar é um ato presente, e o presente, com todas as suas implicações administrativas e políticas, pertence a quem decide, nomeia e responde. Hoje, esse papel está concentrado em quem está no cargo.

Há ainda um elemento inevitável nesse processo: a eleição. Parte das exonerações ocorre justamente porque secretários deixam os cargos para disputar mandatos. Isso reforça o caráter político da reforma, e escancara que o governo já está, de alguma forma, em modo eleitoral.

O risco, nesse cenário, é conhecido. Quando a política entra demais pela porta da gestão, a eficiência costuma sair pela janela. E Roraima, com seus desafios estruturais, não tem margem para improviso. Por outro lado, há oportunidade. Damião pode usar esse momento para reorganizar prioridades, ajustar rotas e, principalmente, estabelecer uma linha de comando mais clara.

A transição lhe deu o cargo. As decisões, agora, vão definir o tamanho do seu governo. No fim, quem nomeia, responde. E, a partir de agora, não há mais transição para explicar, nem herança para justificar. O governo começa de fato quando a caneta pesa. E ela já está na mão de Damião.

Deixe seu comentário

Please enter your comment!
Please enter your name here