Há cinco meses, o senador Mecias de Jesus foi escolhido para ocupar uma cadeira no Tribunal de Contas do Estado de Roraima. Hoje, veio a nomeação. O roteiro esperado seria simples: aceitar, assumir, cumprir a função pública. Em vez disso, o público assiste a uma encenação de “dúvida”, como se o país fosse um grande palco e o tempo institucional pudesse ser tratado como acessório.
Não se trata de uma indecisão genuína. É cálculo. A hesitação, cuidadosamente cultivada, tem endereço eleitoral. O senador preserva o mandato e o palanque para, se confirmada uma eventual eleição suplementar, apresentar-se como candidato ao Governo de Roraima. Nada além disso. Nada aquém.
O problema não é ambição. Ambição é parte da política. O problema é o método. Ao fingir ponderação, Mecias transforma uma escolha já feita em instrumento tático, mantendo abertas duas portas incompatíveis entre si: a toga do controle externo e o palanque do Executivo. Essa ambiguidade interessa a quem? Certamente não ao eleitor, que merece previsibilidade, franqueza e respeito.
Há ainda um efeito colateral incômodo: o desgaste das instituições. O Tribunal de Contas não pode ser tratado como sala de espera eleitoral. Quando um indicado posterga a posse para medir ventos políticos, a mensagem transmitida é de que cargos de Estado podem ser usados como fichas de negociação pessoal. Isso corrói a confiança pública e rebaixa o papel do controle institucional.
A honestidade com o eleitorado exigiria dizer o óbvio: “quero disputar o governo; por isso, não assumo”. Seria legítimo, transparente e, paradoxalmente, mais digno. O que se vê, porém, é a tentativa de manter o melhor dos dois mundos, sem pagar o custo de escolher. Política, sim. Malabarismo, também.
Roraima não precisa de enigmas performáticos. Precisa de decisões claras. Se o projeto é eleitoral, que se assuma o preço e o risco. Se é institucional, que se honre a nomeação. O resto é teatro (e teatro caro, pago com a paciência do cidadão).
No fim, a tal indecisão não revela conflito de consciência; revela estratégia. E estratégia que se sustenta na dissimulação não engrandece ninguém, apenas confirma que, para alguns, a conveniência vem antes da clareza.








