Uma controvérsia envolvendo manifestações políticas, cartazes críticos ao candidato à Presidência do Brasil, Flávio Bolsonaro (PL), e denúncias de perseguição entre estudantes terminou em um confronto verbal no bloco do curso de Direito da Universidade Federal de Roraima (UFRR), na noite de sexta-feira (16), em Boa Vista. O episódio envolveu o deputado estadual Marcinho Belota (PL), a ex-candidata a deputada federal Athally Albuquerque (Republicanos), estudantes e representantes do Centro Acadêmico de Direito (CAD).
De acordo com relatos de estudantes, materiais produzidos e financiados pelos próprios alunos foram retirados e rasgados por Athally, durante a visita dos políticos e de pessoas que os acompanhavam. Os cartazes reuniam manchetes e afirmações críticas a Flávio Bolsonaro e a integrantes de seu grupo político, incluindo temas relacionados ao meio ambiente, à Previdência Social, à educação e a acusações divulgadas pela imprensa.
Marcinho Belota e Athally, por sua vez, afirmam que foram à universidade após receber denúncias de estudantes sobre supostas notícias falsas e hostilizações motivadas por posicionamentos políticos. Athally declarou que procurou a administração universitária antes de entrar no bloco e que recebeu autorização para acessar o local.
A UFRR divulgou uma nota de repúdio ao que chamou de “atos de invasão e depredação” e informou que adotará medidas para apurar o ocorrido. (Leia a nota no final da reportagem).

Estudantes relatam retirada de materiais
O estudante Yano Rodrigues afirmou que alunos do curso de Direito organizaram uma arrecadação coletiva para produzir materiais sobre antifascismo, incluindo uma bandeira, bottons, panfletos e cartazes. Segundo ele, os recursos utilizados vieram dos próprios estudantes.
Yano relatou que o episódio ocorreu após publicações de outros alunos do curso, também nas redes sociais, questionarem a presença dos materiais na universidade e classificarem seu conteúdo como desinformação.
“Eles foram, pegaram, tiraram uma foto e disseram que estudantes de extrema esquerda estavam veiculando fake news dentro da universidade”, afirmou.
Segundo o estudante, Athally, Marcinho e o marido dela foram ao Centro Acadêmico de Direito sem que os responsáveis pela entidade tivessem autorizado a entrada na sala. Yano disse que, quando chegou ao local, encontrou os visitantes conversando com alunos recém-ingressos no curso.
“Eles foram eleitos para o centro acadêmico. E aí, quando eu cheguei na sala, eles estavam lá bem passivos, ouvindo o Marcinho”, relatou.
Ele também afirmou que materiais foram rasgados por Athally porque os visitantes discordavam do conteúdo. Yano sustenta que os cartazes reuniam informações divulgadas por veículos de comunicação e que a direção do curso já havia se manifestado sobre a organização estudantil.
A presidente do Centro Acadêmico de Direito, Sara Karine, também se pronunciou. Em declaração encaminhada à reportagem, ela afirmou que Athally foi ao bloco e rasgou panfletos que continham notícias sobre Flávio Bolsonaro, alegando que eram falsas.
Sara acrescentou que alguns estudantes contrários ao posicionamento do centro acadêmico denunciaram as atividades da entidade, que, segundo ela, não é um órgão institucional da universidade.
Estudantes de direita também denunciam hostilizações

Um estudante, que pediu para não ter o nome divulgado na reportagem, apresentou uma versão diferente sobre o contexto que antecedeu a visita.
Segundo ele, desde 6 de outubro, alunos que se identificam politicamente com a direita vinham sofrendo ataques em um grupo de WhatsApp denominado “DIREITO UFRR GERAL”, com mais de 300 participantes.
O jovem relatou que ele e uma colega receberam ofensas como “twink maldito” e “burra”, além de mensagens que, segundo ele, questionavam a permanência de estudantes de direita na UFRR.
“Qualquer pessoa que se manifestasse no grupo com um posicionamento contrário ao deles era completamente humilhada e submetida a um verdadeiro linchamento virtual”, declarou.
O estudante afirmou que formalizou uma denúncia na Ouvidoria da universidade em 9 de outubro e que, até o momento de seu relato à reportagem, não havia recebido resposta. Por sua vez, a Universidade informou que é necessário respeitar os trâmites de apuração, que podem levar dias.
Lucas também disse que procurou as redes sociais para denunciar a presença de cartazes que considerava falsos e que Marcinho Belota e Athally foram à universidade para verificar a situação e buscar diálogo com a Reitoria.
“Nos sentimos coagidos em frequentar a UFRR por medo de nos agredirem, já que as agressões verbais já aconteceram”, afirmou.
O que dizem Marcinho Belota e Athally Albuquerque

Em manifestações publicadas nas redes sociais na noite de sexta-feira (16) e na manhã de sábado (17), Marcinho Belota e Athally Albuquerque contestaram a versão de que teriam invadido o espaço acadêmico ou agido de forma agressiva.
Athally afirmou que, antes de entrar no bloco de Direito, o deputado entrou em contato com o reitor da UFRR e foi encaminhado ao setor jurídico. Segundo ela, o grupo procurou o setor, apresentou as denúncias e recebeu autorização para acessar as dependências da instituição.
“Antes da gente entrar no bloco 8, nós conversamos com o reitor, fomos encaminhados ao jurídico através dele e recebemos autorização pra entrar e tem tudo registrado”, declarou Athally em vídeo publicado no sábado.
Ela afirmou que encontrou materiais com informações que considerava falsas, incluindo acusações que, segundo ela, já haviam sido contestadas publicamente. Disse ainda que o grupo fotografou e filmou os cartazes e questionou os estudantes sobre a autoria e a distribuição do conteúdo.
Também em nota encaminhada à equipe de reportagem, Athally declarou: “Não houve agressão física, ameaça ou intimidação de nossa parte. Mantivemos uma postura pacífica durante a visita, inclusive diante de discussões em que alguns presentes elevaram o tom de voz”.
Sobre os materiais, Athally afirmou que a análise da legalidade das publicações deve considerar o conteúdo integral, as circunstâncias e a legislação aplicável.
Marcinho Belota, por sua vez, publicou vídeos nos quais negou ter agido com agressividade. Em uma das gravações, afirmou que divulgaria o registro do encontro sem música, para que o público pudesse avaliar a conversa. Até a publicação desta matéria, o parlamentar não divulgou o novo conteúdo.
“Não teve agressão, não teve estresse, não teve alteração de voz, não teve xingamento”, declarou.
Em um vídeo de aproximadamente oito minutos de uma conversa com os estudantes, obtido pela reportagem, o deputado questiona a legalidade da presença dos cartazes e afirma que procurou a administração universitária. Em determinado momento, diz: “A gente tá conversando, ninguém tá brigando, ninguém vai discutir, ninguém vai alterar o tom de voz”.
Durante o diálogo, estudantes questionam a retirada dos materiais e a classificação das publicações como notícias falsas. Um dos interlocutores pergunta se havia algum conteúdo que mencionasse diretamente Flávio Bolsonaro de forma que justificasse a retirada. O deputado sustenta que a divulgação poderia configurar propaganda eleitoral irregular, enquanto estudantes contestam essa interpretação.
A reportagem procurou Marcinho Belota por mensagens e ligações no sábado (17), mas não obteve resposta até a conclusão deste texto.

O conteúdo dos cartazes
As imagens encaminhadas à reportagem mostram materiais com frases críticas a Flávio Bolsonaro, algumas em tom opinativo e outras que reproduzem ou fazem referência a alegações divulgadas por veículos de comunicação.
Entre os exemplos estão cartazes com as frases “Flávio Bolsonaro quer congelar sua aposentadoria e o BPC” e “Flávio Bolsonaro vai tirar dinheiro da escola pública e dar para escola particular”. Outro material questiona a relação entre propostas políticas e consequências ambientais, enquanto outros fazem referências a notícias sobre a vida pessoal do candidato à Presidência e a acusações relacionadas a pessoas de seu grupo político.
O que diz a UFRR
Em nota oficial, a Universidade Federal de Roraima manifestou repúdio aos atos que classificou como invasão e depredação nas dependências do Centro Acadêmico de Direito.
A instituição afirmou que o espaço é destinado à representação, convivência e organização dos estudantes e destacou que divergências políticas e ideológicas fazem parte da vida acadêmica.
“O que não pode ser admitido, sob qualquer justificativa, é que essas divergências se transformem em invasão de espaços, intimidação, destruição de bens, ou qualquer forma de violência ou desrespeito”, declarou a universidade.
A UFRR informou que adotará medidas administrativas, legais e judiciais para apurar o caso e responsabilizar os envolvidos, se for o caso.
A instituição também reafirmou o compromisso com a liberdade de expressão, a autonomia universitária e o respeito à diversidade de ideias.










