Foto: arquivo

Roraima concentra quase todas as Terras Indígenas classificadas em situação de seca grave na Amazônia Legal. Das 23 áreas que chegaram a esse nível em agosto de 2026, 21 estão no estado, segundo levantamento da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).

Os territórios em seca grave em Roraima são Ananás, Aningal, Anta, Araçá, Barata Livramento, Boqueirão, Cajueiro, Canauanim, Malacacheta, Mangueira, Manoa/Pium, Moskow, Muriru, Pium, Ponta da Serra, Raimundão, Santa Inez, Serra da Moça, Sucuba, Tabalascada e Truaru.

Além das 21 áreas na classificação mais severa registrada pelo levantamento, outras oito Terras Indígenas de Roraima estavam sob seca moderada e quatro apresentavam seca fraca.

O cenário levou a coordenadora do Departamento de Gestão Territorial, Ambiental e Mudanças Climáticas do Conselho Indígena de Roraima (CIR), Sineia Wapichana, a alertar para a antecipação das condições típicas do período mais seco no estado.

“O verão chegou mais cedo; o Estado está em emergência”, afirmou.

Roraima concentra casos mais graves

Os dados fazem parte da nota técnica “Panorama territorial das secas nas Terras Indígenas da Amazônia Legal, 2023–2026”, elaborada pela Coiab a partir do cruzamento de 44 meses de informações do Monitor de Secas com os limites das Terras Indígenas acompanhadas pela organização.

Das 407 Terras Indígenas monitoradas na Amazônia Legal, 303 apresentavam algum nível de seca em agosto. Isso representa 74,4% dos territórios analisados e uma área aproximada de 96,98 milhões de hectares.

Ao todo, 120 territórios estavam sob seca fraca, 160 sob seca moderada e 23 haviam alcançado a classificação de seca grave.

É neste último grupo que Roraima se destaca. Sozinho, o estado responde por 21 das 23 Terras Indígenas classificadas em seca grave no levantamento, o equivalente a mais de 90% dos casos nesse nível.

As outras duas áreas em seca grave ficam no Acre.

A Coiab ressalta que os dados indicam um agravamento das condições nos territórios, mas a série disponível ainda não permite afirmar que a seca de 2026 alcançará a mesma extensão registrada em 2024 nem atribuir as mudanças exclusivamente ao fenômeno El Niño.

Falta de água e incêndios estão entre os riscos

O avanço da seca preocupa principalmente pelos efeitos diretos sobre as comunidades indígenas. A redução dos níveis de rios e igarapés pode comprometer o abastecimento de água, a navegação e o deslocamento para acesso a serviços essenciais.

Outro risco é o aumento da ocorrência de incêndios florestais, inclusive em áreas que anteriormente apresentavam menor vulnerabilidade ao fogo.

A estiagem também pode afetar roças, pesca e a disponibilidade de alimentos tradicionais, ampliando o risco de insegurança alimentar dentro das comunidades.

A situação ganha peso especial em Roraima diante da concentração dos territórios que já chegaram ao nível de seca grave e da proximidade do período historicamente mais seco no estado.

Plano prevê preparação das comunidades

O alerta de Sineia Wapichana foi feito durante o webinar “El Niño 2026-2027 e os riscos para os territórios indígenas da Amazônia brasileira”, que reuniu lideranças, técnicos, organizações indígenas e representantes do poder público.

Durante o encontro, a Coiab apresentou o Plano de Adaptação dos Territórios Indígenas da Amazônia frente ao El Niño e Eventos Climáticos Extremos.

O documento reúne orientações para que comunidades e organizações indígenas desenvolvam ações de preparação, monitoramento e resposta a eventos climáticos extremos.

Entre as medidas estão proteção de recursos hídricos, segurança alimentar, cuidados com a saúde, vigilância territorial e prevenção de incêndios.

A proposta é permitir que cada território desenvolva estratégias de acordo com a própria realidade e com experiências acumuladas em períodos anteriores de seca.

A Coiab, no entanto, ressalta que a preparação das comunidades não substitui a responsabilidade do poder público.

Entre as medidas consideradas necessárias estão planos de contingência específicos, antecipação de recursos e garantia de água, alimentos, medicamentos, transporte, prevenção e combate ao fogo, além da participação das próprias comunidades indígenas nas decisões.

“Os povos indígenas não são apenas atingidos pela crise climática. São parte central da resposta e precisam participar das decisões”, afirmou o coordenador-geral da Coiab, Toya Manchineri.

A organização também distribui uma cartilha voltada ao enfrentamento de eventos associados ao El Niño. O material reúne orientações para preparação dos territórios e deve servir de apoio para a elaboração de planos locais.

Com 21 Terras Indígenas já classificadas em seca grave em agosto, Roraima aparece como o principal ponto de atenção do levantamento. O desafio agora é acompanhar a evolução da estiagem e antecipar medidas para reduzir os impactos sobre abastecimento, produção de alimentos, saúde e segurança das comunidades.

ReportagemRedação

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