Roraima entrou oficialmente em situação de emergência por estiagem nesta quarta-feira (2). O decreto foi publicado pelo Governo do Estado diante do agravamento do período seco, que já provoca níveis críticos nos rios, aumento dos focos de calor e prejuízos ao setor produtivo.
A situação de emergência foi decretada por 180 dias e poderá ser prorrogada conforme avaliação da Defesa Civil Estadual. O ato considera a estiagem de intensidade Nível II e autoriza a mobilização dos órgãos estaduais para ações relacionadas ao monitoramento, prevenção, resposta, assistência e recuperação das áreas afetadas.
Rios abaixo da média
Dados do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), atualizados em 27 de agosto, mostram a dimensão da estiagem nos principais rios de Roraima.
Na estação de Boa Vista, no rio Branco, o nível chegou a 1,38 metro. A marca ficou abaixo do menor nível registrado anteriormente para um mês de agosto, de 1,39 metro, e 70,3% abaixo da média histórica do mês, que é de 4,64 metros.
Em Caracaraí, no Sul de Roraima, o rio Branco estava em 2,05 metros, 62,7% abaixo da média histórica de agosto, de 5,50 metros.
A redução dos níveis dos rios afeta a navegabilidade, o abastecimento de água e as atividades produtivas de comunidades ribeirinhas, rurais e indígenas, especialmente aquelas que dependem da produção de subsistência.
Recorde de focos de calor
O cenário também aparece nos dados de queimadas. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Roraima registrou 87 focos de calor em agosto até o dia 27.
O número já supera o recorde histórico para o mês desde o início da série, em 1998. Até então, a maior marca havia sido registrada em agosto de 2023, com 78 focos.
Em comparação com agosto de 2025, quando foram registrados 37 focos, o aumento chega a 135%. O número também está 335% acima da média histórica de agosto, de 20 focos.
O período de estiagem aumenta o risco de incêndios e pode agravar os impactos sobre áreas rurais, florestais e comunidades que enfrentam a redução da disponibilidade de água.
Perdas na produção
A estiagem já provoca prejuízos no setor produtivo de Roraima. Segundo o governo, produtores relatam perdas superiores a 30% em lavouras de milho e soja.
A situação também preocupa a pecuária e tende a se agravar caso o período de seca se prolongue.
O presidente da Aprosoja Roraima, Murilo Ferrari, afirmou que julho teve um volume de chuvas abaixo do esperado e que a produção de soja e milho foi afetada.
“O Estado de Roraima nunca passou por um mês de julho tão seco e a nossa produção de soja e milho foi extremamente afetada”, afirmou.
Segundo ele, o avanço dos incêndios representa outro risco para as áreas produtivas, principalmente aquelas que já sofreram com a falta de chuva.
Falta de água
Além dos impactos ambientais e econômicos, a estiagem já afeta o abastecimento em municípios do interior.
Segundo o Governo de Roraima, há localidades onde a redução da disponibilidade de água já compromete o abastecimento urbano. A Companhia de Águas e Esgotos de Roraima (Caer) deverá realizar ações emergenciais para perfuração de poços em áreas afetadas.
A situação também atinge comunidades indígenas e rurais, onde a redução dos níveis dos rios dificulta o acesso à água e pode comprometer atividades de subsistência.
Operação El Niño
Junto com o decreto de emergência, o Estado instituiu o Gabinete Integrado da Operação El Niño 2026-2027, formado por 19 órgãos públicos.
A estrutura será responsável por organizar ações relacionadas à estiagem, aos incêndios e aos impactos provocados pela redução das chuvas.
O Corpo de Bombeiros informou que 157 brigadistas já foram contratados e que outros 47 deverão ser convocados. As equipes atuarão no combate aos incêndios em diferentes municípios.
Emergência ambiental
A situação de emergência estadual ocorre enquanto Roraima também está incluído em uma emergência ambiental federal relacionada ao risco de incêndios florestais.
A Portaria nº 1.623, de 25 de fevereiro de 2026, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, estabeleceu situação de emergência ambiental por risco de incêndios florestais em Roraima entre setembro de 2026 e abril de 2027.
O cenário reúne, portanto, três problemas que já apresentam reflexos no Estado: a redução dos níveis dos rios, o aumento dos focos de calor e as perdas provocadas pela estiagem na produção rural.










