Durante a campanha da eleição suplementar, o governador interino Soldado Sampaio (Republicanos) prometeu adiantar o pagamento dos salários dos servidores estaduais. A justificativa era evitar qualquer interpretação de uso eleitoral da máquina pública. Três dias depois de ser derrotado nas urnas, veio outra decisão de grande impacto: a exoneração de todos os servidores comissionados do Governo de Roraima. A medida foi replicada em órgãos da administração indireta e acompanhada por atos semelhantes em outros poderes.
A justificativa oficial fala em “atualização” e adequação da estrutura administrativa. Mas, independentemente da justificativa oficial, a sucessão desses fatos inevitavelmente alimenta a percepção de que as futuras nomeações poderão adquirir peso político às vésperas das eleições de outubro. É porque, adotada na semana seguinte a uma esmagadora derrota eleitoral, a medida se assemelha muito mais a uma manobra política em favor do já anunciado pré-candidato ao governo, Soldado Sampaio, para a disputa de outubro.
Não é preciso afirmar que exista um plano previamente desenhado para reconhecer que esse ambiente favorece uma relação de dependência política. Quem perde o cargo naturalmente espera ser chamado de volta. E quem for reconduzido poderá sentir que deve gratidão a quem assinou a nova nomeação.
Cargo público comissionado não deveria ser instrumento de construção de fidelidade eleitoral. O Estado existe para prestar serviços à população, não para produzir relações de dependência entre governantes e servidores.
Aos servidores que hoje vivem a angústia da exoneração, cabe uma reflexão importante. Seu trabalho tem valor! Sua dedicação ao serviço público não começou com um decreto e não termina por causa de outro. Se houver necessidade administrativa (e haverá, com ou sem Sampaio, porque o Estado continuará funcionando amanhã) muitos voltarão aos seus postos. Não por favor pessoal. Não por generosidade política. Mas porque a administração pública precisa de pessoas para funcionar.
Nenhum governo consegue manter escolas abertas, hospitais funcionando, delegacias operando ou repartições atendendo a população sem você lá, servidor. Por isso, quando a eventual recondução acontecer, trabalhe com o mesmo compromisso de sempre. Sirva ao povo de Roraima, e não a um projeto político pessoal. O cargo pertence ao Estado. O seu esforço pertence à sociedade.
Mas nunca permita que tentem transformar seu emprego em moeda de troca pela sua consciência. O voto continua sendo livre, secreto e individual. Nenhum decreto de exoneração pode retirar esse direito. Nenhuma nomeação futura compra essa liberdade. Talvez essa seja a maior mudança de postura na política brasileira nos últimos tempos.
Quem acredita que ainda é possível conduzir a política pela lógica do favor talvez não tenha percebido que a sociedade mudou. Que as pessoas têm acesso a informação e conseguem tirar suas próprias conclusões daquilo que é prometido e daquilo o que é feito de verdade. A resposta foi dada nas urnas, domingo passado.
É por isso que precisamos permanecer atentos, capazes de reconhecer as estratégias que tentam transformar conveniência política em virtude administrativa. Quem não honra a própria palavra dificilmente convencerá pelos atos. E quem promete uma coisa, mas entrega exatamente o contrário, não pode esperar que a sociedade deixe de perceber a contradição.
O servidor público merece respeito. E esse respeito começa quando sua dignidade não é colocada sobre a mesa como peça de uma estratégia política, qualquer que ela seja. Porque governos passam, o Estado de Roraima permanece, e a consciência de cada eleitor também.










