A campanha eleitoral costuma produzir um fenômeno curioso: problemas que desafiaram governos inteiros durante anos passam a ser apresentados como obstáculos simples, prestes a desaparecer após a posse de um novo gestor.
Foi mais ou menos essa a impressão deixada pela entrevista do candidato Soldado Sampaio (Republicanos) à Rádio Folha neste domingo (14).
A lista de promessas é extensa. Zerar uma fila de 49 mil consultas em apenas 90 dias. Realizar mais de duas mil cirurgias em um único mês. Resolver os gargalos da saúde pública. Recuperar escolas indígenas. Acabar com atrasos. Reestruturar a segurança. Fazer concursos regionalizados. Tudo isso acompanhado da garantia de que há recursos disponíveis para executar as mudanças.
O problema não está em prometer. Campanhas existem para isso. O problema está na matemática.
Se a fila realmente possui 49 mil consultas pendentes, zerá-la em 90 dias significa realizar cerca de 544 consultas por dia, todos os dias. Se a meta é superar duas mil cirurgias em junho, estamos falando de aproximadamente 67 procedimentos cirúrgicos por dia.
Não se trata de dizer que é impossível. Trata-se de perguntar como. Quantos médicos estarão envolvidos? Quantas equipes? Quantas salas cirúrgicas? Qual é a capacidade atual da rede? Quanto o Estado realiza hoje? Qual o aumento necessário para atingir essas metas? São comparações básicas que deveriam acompanhar qualquer anúncio dessa magnitude.
Outro aspecto chama atenção. Durante a entrevista, o candidato reconheceu problemas graves. Disse que cerca de 90% das escolas indígenas estão em situação precária. Citou quase dois mil inquéritos parados na Delegacia da Mulher. Falou de dificuldades históricas em diversas áreas da administração pública.
O diagnóstico é importante. Mas ele também produz uma contradição inevitável. Soldado Sampaio foi deputado estadual por vários mandatos. Presidiu a Assembleia Legislativa. Ocupou uma das posições mais influentes da estrutura política estadual nos últimos anos. Por isso, o eleitor tem o direito de perguntar: se a situação era tão grave, onde estavam os mecanismos de fiscalização e cobrança durante todo esse período?
Não se trata de atribuir ao presidente da Assembleia a responsabilidade direta pelos problemas do Executivo. Mas também não parece razoável apresentar-se apenas como alguém que encontrou o caos sem qualquer vínculo com o ambiente político que permitiu sua permanência.
Outro ponto que merece atenção é o uso recorrente da narrativa pessoal. Em vários momentos, a biografia parece ocupar mais espaço que o plano de governo. Histórias individuais têm valor político, mas não substituem planejamento, metas verificáveis e fontes de financiamento claramente identificadas.
A eleição suplementar de Roraima talvez esteja entrando em sua fase mais importante. A fase em que os candidatos precisam sair do terreno das intenções e explicar os meios.
O eleitor já sabe quais são os problemas do Estado. Convive com eles diariamente. O que falta ouvir não é apenas o que será feito, mas exatamente como será feito.
Tentar se apresentar como um observador externo dos problemas do Estado não convence ninguém. Quem ocupou posições de poder, influência e fiscalização ao longo dos últimos anos faz parte do problema que trouxe Roraima até aqui.










