É muito revelador quando uma campanha eleitoral passa a dedicar mais energia à exclusão de adversários do que à conquista de eleitores. Em Roraima, a mais recente investida da coligação liderada pelo governador interino Soldado Sampaio (Republicanos) para retirar o nome de Arthur Henrique (PL) da urna eletrônica parece caminhar justamente nessa direção.
O pedido, protocolado faltando praticamente duas semanas para a eleição suplementar, busca impedir que Arthur concorra mesmo sob judice ou amparado por eventual decisão liminar. Isso não tem impedido que a sociedade questione o significado político desse movimento.
Quem está confiante na força das próprias ideias normalmente procura o eleitor. Quem teme o resultado das urnas costuma procurar o tribunal.
A discussão aqui não é sobre a legalidade do pedido. Isso caberá à Justiça decidir. A questão é outra: qual mensagem é transmitida à população quando o principal esforço político de uma candidatura parece ser reduzir o número de concorrentes em vez de ampliar o número de apoiadores?
A democracia não foi criada para proteger candidatos. Foi criada para proteger o direito de escolha do cidadão.
Quanto mais opções legítimas estiverem disponíveis ao eleitor, mais forte é o processo democrático. Quando o debate passa a girar em torno de quem pode ou não aparecer na urna, a campanha deixa de ser uma disputa de projetos e se transforma numa disputa de despachos.
O episódio também levanta uma reflexão inevitável sobre o papel que deveria ser exercido por um governador interino.
Roraima enfrenta estradas comprometidas pelas chuvas, comunidades isoladas, gargalos históricos na saúde pública, dificuldades logísticas no interior e desafios que se repetem ano após ano. O Hospital Geral de Roraima continua sendo símbolo de filas e espera. A infraestrutura estadual continua sofrendo com problemas que não nasceram ontem.
Seria razoável imaginar que um governo temporário estivesse concentrado em administrar essas urgências. Mas o que se vê é uma agenda cada vez mais dominada pelo calendário eleitoral.
Enquanto a máquina pública deveria estar focada em entregar respostas, a política parece absorver quase toda a energia do momento. Nomeações, articulações, acomodações partidárias e movimentos de campanha ocupam espaço que deveria pertencer à gestão.
Contraditoriamente, Soldado Sampaio não chegou agora à vida pública. Há cerca de 16 anos participa diretamente do centro do poder político de Roraima. Foi deputado estadual, presidente da Assembleia Legislativa e um dos personagens mais influentes da política local durante sucessivos governos.
Por isso, é difícil vender a narrativa de que os problemas do estado são obra exclusiva de terceiros.
As filas na saúde não nasceram em maio. As dificuldades da infraestrutura não começaram na eleição suplementar. Os desafios das estradas vicinais, da educação e dos serviços públicos não surgiram por acaso nas últimas semanas.
Quem participou do sistema político por tanto tempo inevitavelmente compartilha parte da responsabilidade pelos resultados produzidos por ele. Por isso causa estranheza assistir a uma campanha construída sobre a promessa de corrigir problemas que, durante anos, nunca receberam o mesmo grau de indignação.
Onde estava essa indignação quando o uso de helicópteros oficiais era alvo de questionamentos? Soldado Sampaio não era um observador externo dos acontecimentos. Como chefe da Casa Civil, integrava o centro do governo e participava da engrenagem administrativa que hoje critica. Quem esteve tão próximo do poder dificilmente pode se apresentar como alguém alheio aos problemas que ajudou a administrar.
Onde estava essa preocupação quando a saúde acumulava denúncias? Onde estava esse rigor fiscalizador quando sucessivos problemas administrativos se repetiam sem maiores consequências políticas?
São perguntas legítimas que o eleitor tem o direito de fazer.
A eleição suplementar deveria ser uma oportunidade para discutir soluções. Porém, até aqui, o debate parece cada vez mais dominado por disputas judiciais, recursos, liminares e tentativas de redefinir o jogo fora do campo político.
Em uma democracia, cabe ao Judiciário analisar a legalidade das candidaturas. Mas cabe ao eleitor decidir quem merece governar. Quando a disputa passa a ser dominada por tentativas sucessivas de reduzir concorrentes em vez de ampliar apoios, o debate público perde qualidade e a sociedade perde opções.
Nenhum governante se fortalece eliminando concorrentes. Governantes se fortalecem quando demonstram capacidade de administrar, liderar e convencer. O restante é matéria para os tribunais. A legitimidade, porém, continua sendo concedida por um único juiz: o eleitor.










