Mecias de Jesus (Republicanos-RR) Foto: SupCom ALE-RR

O clima esquentou nos bastidores da política em Roraima e, mais uma vez, os ruídos não parecem fruto do acaso. Um desgaste abalou a relação entre dois aliados de peso: o governador Edilson Damião (União Brasil) e o presidente da Assembleia Legislativa, Soldado Sampaio (Republicanos). A fala pública do ministro do STF, Gilmar Mendes, dizendo que se reuniu com o presidente do Legislativo, gerou indigestão do Palácio do Governo aos gabinetes da Assembleia Legislativa. 

Apesar das explicações apresentadas, Sampaio não teria conseguido convencer Damião de que não atuou para pressionar pela retomada do julgamento que envolve o próprio governador e o ex-chefe do Executivo. A pauta, inclusive já foi marcada para a próxima terça-feira (14), no TSE. O deputado sustenta que esteve em Brasília para tratar de questões jurídicas, e não políticas, e que o tema acabou entrando na conversa despretensiosamente, o suficiente para acender o alerta no Palácio do governo.

A crise ganhou corpo após declaração pública do ministro Gilmar Mendes, que confirmou encontro com Sampaio nesta quarta-feira (8) e, na sequência, a cobrança à ministra Cármen Lúcia pela retomada do julgamento. O gesto, ainda que institucionalmente possível, foi interpretado politicamente como movimento sensível e, nos bastidores, como uma interferência que não passou despercebida.

Segundo interlocutores próximos ao governador, a irritação tem endereço. A avaliação dentro do governo é de que o acesso ao ministro e a própria articulação do encontro não ocorreriam sem a atuação direta do ex-senador Mecias de Jesus, hoje conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. É ele quem, nos bastidores, mantém trânsito em Brasília e teria viabilizado a agenda com o magistrado.

Sampaio, sucessor ao governo caso seja confirmada a cassação de Damião e Denarium, com efeito imediato e saída do cargo, ficou como injustiçado para o Republicanos e traidor para o União Brasil.

Mas o episódio reforçou uma leitura recorrente na política local: Mecias segue operando como peça-chave em movimentos políticos. Tem poder de decisão dentro do Senado, por meio do gabinete de sua suplente, que continua praticamente intacto como seu pessoal e influência. Teria, inclusive, influência de voto nas comissões em que ela agora ocupa.

Mesmo assim, tentaram tomar o Republicanos de Mecias, direto em Brasília. O União Brasil não conseguiu. Denarium segue presidente do partido no papel, mas agora, sobretudo se cassado, que aí perde o poder de comando e não vai conseguir transferir seu capital eleitoral para a cunhada, Tânia Soares, mãe do deputado Lucas Souza, e possível sucessora de Denarium na chapa. Sem adesão ao novo nome do projeto, seria a última pá de cal em Denarium.

Na outra ponta, em Brasília, Dr. Hiran (PP), que foi deixado para trás pelo grupo de Denarium e Damião também se articulou. Não se permitiu perder a presidência da Federação União/PP. O União de Damião também tentou tomar, mas o senador soube fazer um movimento bem melhor, com Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, (aquele que ajudou Denarium na amizade com o conterrâneo Nunes Marques, ministro que devolveu o relatório com a possível decisão final sobre a elegibilidade do ex-governador de Roraima). Por mera coincidência ou não, depois que Denarium largou a mão de Hiran e Ciro Nogueira, o relatório voltou bem rapidinho ao plenário.

Na próxima terça-feira, quando houver a confirmação de inelegibilidade de Antonio Denarium e do próprio Edilson Damião, o cenário se reorganiza de forma imediata, com Soldado Sampaio assumindo o mandato-tampão e sendo novo governador, com candidatura própria e longe do União Brasil na eleição de 2026. Um desfecho que, por si só, ajuda a explicar o nível de tensão envolvido.

O governo-regente tem adotado cautela. Não haveria, neste momento, disposição para uma resposta “à altura” que amplie o conflito com Mecias de Jesus, especialmente para evitar atritos indiretos com o ministro Jhonatan de Jesus (TCU), filho de Mecias, e figura com influência relevante em Brasília.

Daqui até a próxima semana, no Centro Cívico, mais precisamente entre o Palácio e a Assembleia,  a estátua do garimpeiro se abaixe. Vem fogo cruzado de todos os lados.

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