No lavrado que se estende até o horizonte, nas serras que cercam as comunidades e nas casas de palha onde o fogo nunca se apaga, as mulheres indígenas de Roraima sustentam a vida cotidiana de seus povos. São elas que ensinam as crianças a falar a língua ancestral, preparam os alimentos tradicionais, cuidam da terra e mantêm vivas histórias que atravessam gerações.
Neste Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, o protagonismo dessas mulheres ganha ainda mais significado em um estado onde a presença indígena é uma das marcas mais fortes da identidade cultural.
A força feminina que move as comunidades
Roraima tem a maior proporção de população indígena do Brasil. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 97 mil indígenas vivem no estado, pertencentes a povos como Macuxi, Wapichana, Yanomami, Taurepang, Ingaricó, Wai Wai e Patamona.
Nas comunidades, a rotina começa cedo. Antes mesmo do nascer do sol, muitas mulheres já estão de pé preparando o caxiri, organizando a roça ou cuidando das crianças. Entre uma tarefa e outra, também são responsáveis por transmitir os saberes tradicionais – desde o plantio da mandioca até o uso de plantas medicinais.
“Ser mulher indígena é cuidar da comunidade inteira”, resume uma liderança da região do Alto São Marcos, onde mulheres organizam encontros para compartilhar conhecimentos, fortalecer a cultura e discutir os desafios enfrentados nas aldeias.
Liderança que nasce da tradição
Nos últimos anos, as mulheres indígenas também passaram a ocupar cada vez mais espaços de decisão.
Um dos maiores símbolos dessa conquista é a advogada indígena Joenia Wapichana, que foi deputada federal e se tornou a primeira mulher indígena a presidir a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Natural de Roraima, ela é uma referência nacional na defesa dos direitos dos povos originários.
Para muitas jovens indígenas do estado, a trajetória de Joenia mostra que é possível caminhar entre dois mundos: preservar a cultura ancestral e, ao mesmo tempo, ocupar espaços nas universidades, na política e nas instituições públicas.
Guardiãs da floresta e da vida
Nas aldeias, o papel das mulheres também está diretamente ligado à proteção do território.
São elas que lideram projetos de agricultura tradicional, produção de artesanato e iniciativas de preservação ambiental. Em muitos casos, organizam reuniões comunitárias e mobilizações para defender as terras indígenas de invasões e ameaças ambientais.
Em regiões isoladas, onde o acesso a serviços públicos ainda é limitado, as mulheres também assumem papéis fundamentais na saúde comunitária e na educação das crianças.
Desafios que ainda persistem
Apesar do protagonismo, as mulheres indígenas ainda enfrentam dificuldades que vão desde a falta de acesso a políticas públicas até situações de violência de gênero.
Levantamentos apontam que casos de agressão psicológica e violência doméstica também atingem comunidades indígenas, muitas vezes agravados pelo isolamento geográfico e pela dificuldade de acesso à rede de proteção.
Por isso, lideranças femininas têm se mobilizado cada vez mais para discutir direitos, igualdade e proteção às mulheres dentro e fora das aldeias.
Sabedoria que atravessa gerações
Mais do que resistência, a presença das mulheres indígenas em Roraima representa continuidade.
São elas que ensinam as crianças a respeitar a terra, a ouvir os mais velhos e a valorizar a própria identidade. Em cada história contada à beira do fogo, em cada artefato produzido ou em cada canto tradicional, está guardada a memória de um povo.
Neste Dia Internacional da Mulher, celebrar as mulheres indígenas é reconhecer que grande parte da cultura e da história de Roraima passa pelas mãos, pela voz e pela sabedoria dessas guardiãs da vida.








