Reprodução/Redes Sociais @chicorodriguesrr

O senador Chico Rodrigues (PSB-RR) descobriu, em ano eleitoral, as virtudes da simplicidade. De repente, o feed virou altar, feira e rodoviária. Surge em vídeo rezando, aparece comendo açaí com farinha, e faz questão de registrar o trajeto de “busão” – expressão que ele próprio enfatiza, como se fosse credencial de autenticidade popular. A liturgia é conhecida: aproximar-se do cotidiano do eleitor quando a urna se aproxima.

Nada contra fé, açaí ou transporte público. Pelo contrário. O problema é a súbita conversão estética. A política brasileira já viu esse roteiro muitas vezes: a câmera liga e o candidato vira gente comum; a câmera desliga e o mandato segue distante e protocolar. A pergunta que fica é simples: o que mudou agora?

Chico Rodrigues não é um novato tentando se apresentar ao público. É figura experimentada da política roraimense, com trajetória longa e alianças que variaram conforme o vento. O que se vê hoje é uma tentativa de reconstrução simbólica, desassociada àquilo que ele mais teme em sua campanha, a lembrança do episódio do dinheiro na cueca, cujo caso foi arquivado pelo ministro Flávio Dino, do Supremoo Tribunal Federal (STF), por falta de, segundo argumenta, provas que levem a crer que o dinheiro encontrado durante operação da Polícia Federal era ilícito.

Até então, em 2026, Chico aponta como o único candidato ao Senado alinhado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em Roraima. Chico integra o partido do vice-presidente Geraldo Alckmin em Roraima. O palanque federal é trunfo e risco. Num estado onde o lulismo enfrenta resistências históricas, o marketing precisa compensar a geografia política. E aí entram as imagens: fé compartilhada, comida regional, ônibus. Tudo para sinalizar pertencimento.

Mas pertencimento não se improvisa. Não nasce de roteiro. Constrói-se com coerência entre prática e discurso, com presença constante, inclusive quando não há eleição à vista. Se o “busão” é metáfora de empatia, é preciso saber se a empatia também esteve presente nas votações, nas prioridades orçamentárias, na defesa de pautas locais. Se o açaí com farinha é símbolo de identidade, que identidade política foi defendida ao longo do mandato?

O eleitor roraimense já mostrou que sabe distinguir gesto de cena. Em tempos de redes sociais, a estética do simples pode render curtidas, mas não substitui memória política. Vídeos emocionais não apagam contradições, nem fotos espontâneas resolvem desconfianças acumuladas.

Populismo não é falar com o povo; é falar como se fosse o povo, apenas quando convém. A fronteira entre proximidade e oportunismo é tênue,  e, em ano eleitoral, costuma desaparecer sob filtros bem escolhidos.

Se a conversão é sincera, o tempo dirá. Se for apenas roteiro, a urna também dirá. Em Roraima, mais do que nunca, o eleitor terá de decidir se compra a narrativa do “homem simples” ou se exige algo mais robusto: coerência, consistência e compromisso que resistam além do período de campanha.

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