Foto: divulgação/ MDS

Em Roraima, áreas antes devastadas pelo garimpo ilegal começam a ganhar um novo sentido. Na comunidade de Sikamabiu, no Baixo Mucajaí, a retirada dos invasores abriu espaço para a implantação de tecnologias agrícolas que unem recuperação ambiental, produção de alimentos e autonomia indígena. Onde antes havia o barulho das dragas, hoje surgem roças, tanques de peixe, viveiros de mudas e sistemas agroflorestais.

A iniciativa marca o início de um conjunto de unidades demonstrativas de soberania alimentar na Terra Indígena Yanomami, maior território indígena do país. A primeira unidade foi inaugurada no dia 2, em Sikamabiu, comunidade com cerca de 30 famílias, quase 400 indígenas, e já funciona como modelo para outras regiões do território.

O projeto integra produção sustentável e recomposição de áreas degradadas. Em Sikamabiu, a estrutura reúne aviário com 100 galinhas rústicas; viveiro com capacidade para 2 mil mudas nativas, como açaí e cacau; tanque de compostagem; roças de mandioca, batata, arroz e outras culturas; Sistemas Agroflorestais (SAFs) para restaurar cicatrizes do garimpo; além de um tanque escavado de piscicultura com 440 m².

“É um marco dentro do território. Onde já corremos risco com garimpeiros armados, agora levamos ferramentas para garantir soberania alimentar”, afirma a pesquisadora Rosemary Vilaça, da Embrapa Roraima, que atua na região desde 2022 e coordena a implantação das unidades.

Dois açudes antes usados no garimpo ilegal também foram incorporados ao sistema produtivo, após testes que descartaram contaminação por mercúrio. Juntos, os açudes e o tanque escavado abrigam 4 mil alevinos. Além disso, a comunidade recebeu outros 10 tanques elevados com mais 4 mil alevinos de tambaqui, reforçando a oferta de proteína animal.

A unidade de Sikamabiu é a primeira de oito previstas para este ano em Roraima, beneficiando 18 comunidades yanomami nas regiões de Surucucu, Homoxi, Xitei, Lasasi, Ajarani, Olomai e Uxiu. O financiamento vem do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, que destinou R$ 90 mil à unidade local dentro de um Termo de Execução Descentralizada de R$ 1,8 milhão com a Embrapa. A Funai dá suporte logístico e articula o trabalho com as comunidades, enquanto o Instituto Federal de Roraima contribui com formação técnica.

No eixo da piscicultura, o Ministério da Pesca e Aquicultura lidera a instalação dos tanques em geomembrana e a capacitação local. Trinta e quatro indígenas já foram formados pelo IFRR para operar o sistema e multiplicar o conhecimento dentro da comunidade. A expectativa é que a produção conjunta de peixes e aves chegue a 1 tonelada até o fim de 2026.

As ações fazem parte do Plano de Ação para o Desenvolvimento Sustentável da Terra Indígena Yanomami, coordenado pela Funai, que articula diferentes ministérios com foco no bem viver dos povos Yanomami e Ye’kwana. A agenda de entregas inclui ainda a inauguração, em Boa Vista, do Centro de Referência em Direitos Humanos Yanomami e Ye’kwana, ampliando o atendimento e a proteção de direitos.

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