Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. Foto: Shutterstock

Apoiar um governo forte não significa apoiar um poder sem freios. Apoiar o fim de uma ditadura não pode virar pretexto para criarmos um novo ditador, ainda mais forte e poderoso. Muitos de nós, sobretudo os que vivem o impacto imediato da imigração venezuelana, defendem ações duras no exterior porque acreditam que elas protegem seu país, sua economia e seu modo de vida. Essa preocupação é legítima. Segurança nacional importa. Liderança importa. Mas há uma pergunta que precisa ser feita com honestidade: o que acontece quando um presidente decide que só a própria moralidade o limita?

Quando um líder dos Estados Unidos afirma que não precisa do direito internacional para agir, ele não está falando apenas de inimigos. Ele está dizendo ao mundo que qualquer território pode se tornar “estratégico”, dependendo da conveniência do momento. Hoje é a Venezuela. Ontem foi a Groenlândia. Amanhã, por que não a Amazônia?

A Amazônia não é um deserto distante. Ela é uma das regiões mais estratégicas do planeta, concentra recursos naturais, biodiversidade, água doce e influência climática global. Basta que alguém decida enquadrá-la como “questão de segurança americana” para que o argumento esteja pronto. Esse é o perigo real quando o poder não reconhece limites externos.

Talvez você pense: “Mas isso nunca aconteceria”. A história mostra que quase todas as grandes intervenções começaram exatamente assim: com a certeza de que havia uma boa razão, um interesse maior, uma urgência moral. Quando o precedente é aberto, ele não escolhe o próximo alvo com base em justiça, mas em oportunidade.

Apoiar seu presidente não exige fechar os olhos para os riscos de uma liderança que se coloca acima das regras. Pelo contrário. As maiores nações do mundo se tornaram grandes não apenas pela força, mas porque aceitaram limites, construíram alianças e respeitaram princípios que evitam o caos global.

Se hoje a ideia de uma intervenção na Amazônia parece absurda, é justamente porque o mundo ainda acredita que existem fronteiras morais, legais e institucionais. Quando essas fronteiras são descartadas em nome da força, nenhum território está realmente seguro — nem mesmo os aliados, nem mesmo os próprios Estados Unidos.

Refletir sobre isso não é ser contra a América. É, talvez, a forma mais responsável de protegê-la do custo de um poder que já não reconhece freios.

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