Comunidade indígena na terra Yanomami (Foto: Funai/arquivo)

Nove meses após o início das ações de desintrusão do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami (TIY), lideranças indígenas relatam que os garimpeiros retornaram ao território. Um vídeo cedido pela Hutukara Associação Yanomami (HIY) mostra uma aeronave que sofreu queda na área do Rio Mucajaí, e conforme as lideranças, outras aeronaves tripuladas por garimpeiros sobrevoam o território. Os indígenas relatam ainda a presença de maquinários em operação próximo ao Rio Couto de Magalhães, contaminando o rio com lama e mercúrio.

“Estamos comunicando, diariamente, que os invasores estão retornando para o território e que a retirada de garimpeiros têm sido lenta e deixado os nossos irmãos à mercê de criminosos que nos atacam e destroem a floresta”, conta Junior Herukari, presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuana (Condisi-YY).

Maior território indígena do Brasil, a Terra Indígena Yanomami ainda enfrenta reflexos da grave crise humanitária e sanitária que atingiu dezenas de adultos e crianças que sofrem com desnutrição grave e malária. Desde o dia 20 de janeiro, a região está em emergência de saúde pública. Alvo há décadas de garimpeiros ilegais, a região enfrentou, nos últimos anos, o avanço desenfreado da atividade ilegal no território.

Além dos atendimentos em saúde, o governo federal atuou para retirar garimpeiros do território, com agentes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e de Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Polícia Federal (PF), Força Nacional e Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Desde junho, o Ministério da Defesa também passou a atuar de forma repressiva aos invasores e na desintrusão de garimpeiros do território. Uma das ações foi o fechamento do espaço aéreo nas terras indígenas para forçar a saída dos garimpeiros, mas desde maio, os sobrevoos sobre o território estão autorizados.

“Eles voltaram e estão destruindo os igarapés, os rios e aqui onde moramos. Estamos denunciando porque precisamos tirar eles daqui. Tem relatos em várias comunidades no Paapiú e em outros locais da Terra Yanomami”, acrescenta o presidente do Conselho Indígena de Roraima (CIR), Edinho Batista.

Sobrevoo
Um vídeo mostra invasores fazendo um sobrevoo ilegal de helicóptero a uma região habitada por indígenas Moxihatëtëa, que são isolados. O vídeo foi compartilhado no TikTok com o título “índios canibais em Roraima” e foi publicado no dia 13 de novembro, mas foi apagado. Apesar disso, o registro foi feito pela Urihi Associação Yanomami.

Nas imagens, ao menos dois homens falam sobre os indígenas, que estariam lançando flechas contra a aeronave. Um deles diz: “bando de v… (…) olha lá os canibal [sic] para quem nunca viu”. O vídeo foi compartilhado por Herukari, que também é presidente da Urihi Associação Yanomami, no Twitter.

 

Os Moxihatëtëa vivem em total isolamento, sem contato com outros indígenas ou não indígenas, e sobrevivem exclusivamente do que cultivam e caçam na floresta. Apesar de não terem contato com os demais Yanomami, eles são considerados um subgrupo da mesma etnia, porque possuem o mesmo tronco linguístico, e chegaram a ser dados como extintos nos anos 1990. A lei brasileira proíbe a entrada de não nativos em terras indígenas, sem autorização, e protege, de forma especial, os indígenas que nunca tiveram contato ou são de recente contato com não indígenas.

Edinho reconhece que o Governo Lula deu início à operação de desintrusão do garimpo ilegal, mas alega que após o início da operação, não houve reforço nas ações para garantir a segurança dos indígenas. “Nós já vínhamos recebendo relatos, nas comunidades, com a diminuição dos garimpos depois da ação do governo federal, mas agora vemos relatos de garimpeiros, principalmente, em comunidades mais afastadas e isoladas, fazendo com que nossos irmãos sejam alvo da violência que eles podem trazer“, finaliza.

A reportagem tentou contato com o Ministério dos Povos Indígenas, o Ministério da Justiça e Segurança Pública e com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) para questionar se estão cientes sobre o retorno de garimpeiros no território Yanomami e quais ações serão feitas para garantir a segurança dos indígenas, mas não houve retorno até o fechamento da matéria.

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