Terra Yanomami em Roraima. Foto: Leonardo Prado/PGR

Uma investigação feita pelos centros de estudo FA (Forensic Architecture), da Inglaterra; e CLX (Climate Litigation Accelerator), dos EUA; aponta que a Terra Yanomami viveu, nos últimos três anos, uma rápida disseminação da mineração de ouro e um consequente aumento da violência contra as comunidades. O problema, dizem, foi causado pelas ações e omissões do governo Jair Bolsonaro (PL).

O estudo “Mineração de ouro e violência na floresta amazônica”, divulgado hoje, aponta que a mineração ao longo do rio Uraricoera dobrou com a chegada ao poder de Bolsonaro. A reportagem tenta contato com o governo para receber um posicionamento sobre a investigação.

Nos três anos anteriores à posse de Bolsonaro, em 2019, a mineração de ouro era de 500 hectares. “Nos três anos desde que Bolsonaro assumiu, a taxa de crescimento dobrou, devastando mais 1.000 hectares da floresta amazônica”, relata o documento. Segundo pesquisadores, a partir de 2019, vastas extensões da floresta e comunidades indígenas que nela vivem foram sido submetidas a crescentes violência “encorajados pela retórica e políticas do governo”.

“Desde 2019, as comunidades indígenas têm visto um aumento nos ataques de mineiros ‘selvagens’. A vila de Palimiu, no estado de Roraima, por exemplo, viu seis ataques violentos apenas em 2021”, dizem. Segundo o estudo, minas clandestinas foram instaladas em áreas que deveriam ser preservadas por serem “vitais para regular o clima local e do planeta, e essencial para combater as alterações climáticas”.

Violência, mercúrio e PCC

A investigação focou na investigação da violência e na destruição ambiental ao longo do rio Uraricoera (o mais extenso rio do estado de Roraima, com cerca de 870 quilômetros). Lá, foram mapeados os ataques contra aldeias. Com base na hora e no local de 12 atentados, os pesquisadores avaliaram as circunstâncias de cada um deles.

Desses ataques, dois deles à aldeia Palimiu, em 10 e 11 de maio de 2021, chamaram a atenção. “Nossa investigação mostra que eles foram realizados por garimpeiros e provavelmente contou integrantes da facção criminosa sediada em São Paulo, o PCC [Primeiro Comando da Capital]”, cita.

Para avaliar a destruição ambiental, foram usadas imagens de satélite e técnicas de análise de sensoriamento remoto. Nas imagens é possível ver pistas de pouso ilegais, que alimentam um “esquema de escoamento complexo de minas perto da aldeia Aracaçá, por exemplo, que sofre com a presença do mercúrio tóxico”.

Com base na localização das minas e nos padrões de crescimento e proximidade com as aldeias Yanomami entre 2016 e 2022, eles conseguiram perceber um avanço na atividade ilegal e do desmatamento. Concomitante a esse crescimento, os pesquisadores analisaram as implicações das “políticas e ações de Bolsonaro na administração em relação às taxas e padrões de desmatamento, bem como incidentes de violência contra o povo Yanomami”.

“Essas políticas buscam incentivar a mineração de ouro e minar a soberania indígena. As políticas de Bolsonaro afetaram a taxa de desmatamento e o número de ataques violentos”, conclui. Desde 2019, dizem, o governo adota políticas de incentivo ao ouro minerado em terras indígenas. “Isso inclui: limitar as agências ambientais, desfinanciar a proteção ambiental, reduzir multas por crimes ambientais e tentativas de legalização da mineração sobre indígenas”, pontua.

Pesquisadores veem relação de ações com governo

Segundo Omar Ferwati, pesquisador de FA, o estudo traz pela primeira vez evidências concretas de que as políticas do governo Bolsonaro causaram “diretamente um rápido aumento na mineração ilegal de ouro, desmatamento e violência contra o indígenas Yanomami”.

“O governo Bolsonaro é, portanto, cúmplice e culpado da destruição da floresta amazônica e da violência contra seu povo”, diz. Melina De Bona, advogada do CLX, diz que o mundo está de olho no país por conta da forma como o governo trata a questão ambiental. “À medida que cabeças de todo o mundo se voltam para o governo brasileiro, o próximo governo deve decidir como vai lidar com uma crise da qual ele —ou qualquer ser humano— não pode escapar”, afirma.

Já o professor Paulo Tavares, colaborador da pesquisa e professor da UnB (Universidade de Brasília), existe uma dificuldade histórica em ter informações desses povos que vivem em áreas longínquas. “Como essas Terras Indígenas são muito remotas, ir ao local denunciar é muito perigoso para jornalistas e ativistas de direitos humanos, como nos mostrou dolorosamente os recentes assassinatos de Bruno Pereira e Dom Philips”, comenta.

O público tem apenas recortes da violência que está sendo infligida a esses territórios, porque esses eventos aparecem de forma esporádica e desconexa. Mas usando dados de satélite e análise de vídeo, a investigação nos permitiu ver algo mais amplo, com o aumento do desmatamento e a virulência anti-indígena e anti-ambiente da retórica do governo Bolsonaro.

Paulo Tavares, UnB.

A FA é uma agência de pesquisa interdisciplinar com sede em Goldsmiths, na Universidade de Londres (Inglaterra). Já a CLX, que tem sede em Nova York (EUA), é um centro colaborativo global que congrega estratégias e ideias para uma ação climática urgente. A colune enviou e-mail às 7h de hoje à Funai (Fundação Nacional do Índio) pedindo explicações sobre as acusações feitas no estudo e aguarda retorno. Em março, à essa mesma coluna, a Funai informou que atuava com atividades de monitoramento territorial Yanomami por meio de quatro Bases de Proteção Etnoambiental na região.

“A área Yanomami conta com as Bapes da Funai Serra da Estrutura, Walo Pali, Xexena e Ajarani. Todas essas unidades são responsáveis por ações permanentes e contínuas de proteção, fiscalização e vigilância territorial, além de coibição de ilícitos, controle de acesso, entre outras ações em conjunto com órgãos de segurança pública competentes”, informou. Sobre denúncias de ilícitos, disse que somente a PF (Policia Federal) poderia passar informações. O órgão, porém, não comenta investigações em andamento.

 

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