Senador Chico Rodrigues (PSB-RR). Foto: Carlos Moura/Agência Senado

A decisão da Procuradoria-Geral da República de pedir o arquivamento de grande parte das investigações contra o senador Chico Rodrigues escancara uma velha dissonância da política brasileira: a distância entre o rigor jurídico e o impacto simbólico dos fatos. Do ponto de vista técnico, a conclusão pode até fazer sentido. Do ponto de vista político e ético, o desconforto permanece. E não é pequeno.

Em outubro de 2020, no auge da pandemia de Covid-19, a Polícia Federal deflagrou uma operação para apurar desvios de recursos públicos destinados à área da saúde em Roraima. Durante as buscas, agentes encontraram dinheiro em espécie na residência do senador e, de forma ainda mais chocante, parte dos valores escondida na parte de trás de sua cueca. A história correu o país, virou manchete, meme e símbolo de uma crise moral em meio a um dos períodos mais dramáticos da história recente brasileira.

Agora, mais de cinco anos depois, a PGR afirma que a investigação não conseguiu comprovar a origem ilícita do dinheiro apreendido. Segundo o procurador-geral Paulo Gonet, não houve elementos suficientes para demonstrar que os valores estavam ligados a crimes como lavagem de dinheiro ou aos supostos desvios investigados. Sem essa correlação direta, defendeu o arquivamento dessas frentes do inquérito, posição encaminhada ao ministro Flávio Dino, relator do caso no Supremo Tribunal Federal.

Sob a ótica estritamente legal, o argumento é conhecido e recorrente: sem prova da ilegalidade do dinheiro, não há crime a sustentar. O problema é que a política não se esgota na legalidade fria. Ela também se constrói a partir de símbolos, confiança pública e padrões mínimos de decoro. E é justamente aí que o caso de Chico Rodrigues segue produzindo ruído.

Não se trata de defender condenações sem provas ou de relativizar garantias fundamentais. Trata-se de reconhecer que um senador da República, flagrado escondendo dinheiro no próprio corpo durante uma operação policial que investigava desvios em plena pandemia, produz um dano institucional que não desaparece com um parecer técnico. A legalidade pode até absolver; a imagem pública, dificilmente.

O arquivamento das suspeitas reforça a sensação de que casos politicamente escandalosos tendem a terminar em soluções burocráticas, quase sempre incapazes de responder à indignação social que os acompanha. Mesmo quando o processo penal não avança, o episódio permanece como retrato de uma cultura política tolerante com situações que, em qualquer outro contexto, seriam inaceitáveis.

Resta, ao menos, uma frente ainda em apuração, agora fora do STF, relacionada à suspeita de advocacia administrativa para favorecer uma empresa em contratos de máscaras. Mas, independentemente do desfecho, o episódio do “dinheiro na cueca” já entrou para a memória coletiva como algo maior que um inquérito: virou metáfora de um país onde o absurdo se repete, causa espanto momentâneo e, não raro, termina sem consequências proporcionais ao impacto que gerou.

No fim, o caso expõe menos um senador isolado e mais um sistema que, muitas vezes, até funciona juridicamente, mas falha em oferecer respostas políticas à altura da confiança que dele se espera. A cueca pode ter sido esvaziada de provas, mas o constrangimento institucional continua cheio.

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